Situações e comportamentos · Pergunta 133
Agressividade dirigida a outras pessoas: como agir com segurança?
O que se passa e porquê
Convém começar pelo enquadramento, porque a representação social distorce a realidade. A maioria das pessoas com perturbação mental nunca é agressiva, e as pessoas com doença mental são muito mais frequentemente vítimas do que autoras de violência. Os preditores mais fortes de agressividade não são o diagnóstico mas a história prévia de violência, o consumo de álcool e de outras substâncias, e a exposição atual a ameaça ou a coerção. Quando a agressividade ocorre no contexto de uma perturbação mental, é habitualmente reativa — resposta a uma ameaça percebida — e não instrumental.
A escalada obedece a uma sequência reconhecível: inquietação, aumento do volume e do ritmo do discurso, invasão do espaço dos outros, gesticulação, ameaça verbal, agressão a objetos e, por fim, agressão a pessoas. Cada degrau oferece uma janela de intervenção, e a janela mais eficaz é a primeira. O momento de maior risco não é o pico, mas a transição da agressão a objetos para a agressão a pessoas.
O que a própria pessoa pode fazer
Quem já teve episódios de agressividade sabe, quase sempre, o que os antecede. Escrever isso em período de calma, com quem convive, é a intervenção mais útil disponível: quais são os sinais, o que ajuda naquele momento, o que agrava, quem deve falar e quem deve afastar-se, e qual é o sinal combinado para interromper a interação sem discussão — uma palavra, um gesto. O plano deve incluir o que fazer com o acesso a objetos perigosos e com o consumo de álcool, que é o fator modificável de maior peso.
O que fazer quem acompanha
A sequência é a seguinte, por ordem. Assegurar a saída: posicionar-se com caminho livre para a porta e nunca deixar a pessoa entre si e a única saída. Afastar quem não é necessário, sobretudo crianças e pessoas que agravam a situação. Retirar discretamente objetos utilizáveis para ferir. Reduzir a estimulação: desligar televisão, baixar luzes, diminuir o número de vozes. Falar uma pessoa de cada vez, e que seja aquela com quem existe melhor relação.
Manter distância mínima de dois braços — mais do que na conversa comum — e manter as mãos visíveis, abertas, abaixo da linha do peito. Adotar posição ligeiramente lateral. Baixar a voz e falar devagar, com frases curtas. Fazer uma pergunta aberta e esperar. Reconhecer o que na queixa é legítimo. Oferecer alternativa concreta e imediata: sair para o exterior, beber água, falar noutra divisão, adiar a decisão que está em causa.
Se a escalada continuar apesar disto, a decisão correta é o recuo e não a insistência. Sair, fechar a porta se possível, e pedir ajuda. O recuo não é derrota nem abandono: é a intervenção indicada quando as anteriores falharam.
O que nunca fazer
Não tentar imobilizar sem apoio. A contenção física por uma pessoa sem formação e sem apoio é o cenário em que ocorre a maioria das lesões graves, tanto de quem contém como de quem é contido. Não responder à ameaça com ameaça. Não encurralar — deixar sempre saída para ambos. Não tocar, não apontar o dedo, não cruzar os braços, não manter contacto ocular fixo e prolongado, que é lido como desafio. Não discutir o conteúdo do delírio, se existir. Não fazer promessas que não se podem cumprir para ganhar tempo, porque o incumprimento destrói a confiança de que se precisará depois. E não guardar segredo do episódio: a ocultação por vergonha impede que os serviços avaliem o risco e ajustem o tratamento.
Quando é urgência
Ligue 112 quando existir agressão física em curso, ameaça com arma ou objeto perigoso, risco iminente para crianças ou para pessoas vulneráveis, ou quando já se retirou e não consegue garantir a segurança. Ao ligar, diga que se trata de uma situação de saúde mental, descreva o comportamento em termos observáveis, indique se há armas em casa, se houve consumo de substâncias, se a pessoa tem seguimento e qual a medicação. Peça, se possível, que a abordagem seja feita sem sirenes e sem exibição de força, que é frequentemente o que pode desencadear o agravamento.
Depois
Três coisas importam depois. Comunicar o episódio à equipa que acompanha a pessoa, com o registo do que precedeu — pode indicar necessidade de ajuste terapêutico. Cuidar de quem assistiu, em especial crianças, que não devem ficar sem explicação. E cuidar de si: a exposição a agressividade de alguém que se ama produz uma mistura de medo, culpa e ressentimento que raramente se resolve sem apoio. Se houve agressão física a si, existe crime e existe direito a proteção, ainda que a pessoa tenha uma doença — as duas coisas não se excluem.
Ver também as perguntas 132 (raiva) e 72 (quando recorrer ao 112).
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