Apoiar alguém · Pergunta 86
Como pode a família participar no tratamento de saúde mental e prevenir recaídas?
Um papel demonstradamente relevante, e a magnitude do efeito documentado é superior à da maioria das intervenções psicossociais estudadas em saúde mental.
A metanálise em rede de Rodolico et al. (2022), publicada na Lancet Psychiatry, comparou 11 modelos de intervenção familiar em 90 ensaios clínicos aleatorizados com 10 340 participantes. Todos os modelos, com exceção das intervenções orientadas exclusivamente para a crise e das psicoeducações com duas sessões ou menos, reduziram significativamente a taxa de recaída na esquizofrenia aos 12 meses face aos cuidados habituais. As razões de possibilidades variaram entre 0,18 (IC 95% [0,12; 0,27]) para a psicoeducação familiar isolada e 0,63 (IC 95% [0,42; 0,94]) para as intervenções comunitárias com envolvimento de familiares.
O resultado mais notável, e contraintuitivo, é o da psicoeducação familiar isolada — sem treino comportamental nem componentes adicionais — apresentar o efeito mais forte, superior ao dos modelos mais complexos. As equipas de investigação concluíram que, em contextos com restrições de recursos, a psicoeducação familiar deve ser a intervenção a implementar prioritariamente. Este achado tem implicações práticas diretas: a intervenção mais eficaz é também a mais simples e a menos exigente em formação especializada.
Os componentes habituais da psicoeducação familiar incluem informação sobre a condição, sobre o tratamento e sobre a evolução esperada; informação sobre sinais precoces de recaída e sobre o plano de resposta; orientação sobre comunicação; e espaço para as dúvidas e para as emoções dos familiares. A dose mínima importa: as intervenções com duas sessões ou menos não demonstraram eficácia.
Um conceito central nesta literatura merece explicação, por ser frequentemente mal interpretado. A emoção expressa designa um padrão de comunicação familiar caracterizado por criticismo elevado, hostilidade ou sobreenvolvimento emocional, e associa-se de forma consistente a maior risco de recaída. É essencial não converter esta constatação em culpabilização: a emoção expressa elevada é, na maioria dos casos, consequência compreensível de anos de desgaste, de informação insuficiente e de ausência de apoio, e não causa da doença. As teorias que responsabilizavam as famílias pela origem da esquizofrenia foram abandonadas e carecem de fundamento.
Do lado prático, as orientações com melhor sustentação são: reduzir o criticismo dirigido à pessoa e distinguir a pessoa dos sintomas; evitar o sobreenvolvimento que anula a autonomia, por exemplo a substituição em tarefas que a pessoa consegue realizar; manter expectativas realistas e ajustadas à fase da doença, nem excessivas nem demasiado baixas; não discutir com conteúdos delirantes; preservar rotinas familiares e espaços próprios de cada membro; e assegurar que as responsabilidades de cuidado são distribuídas e não concentradas numa só pessoa.
As famílias devem, além disso, exigir informação. Existe frequentemente uma tensão entre a confidencialidade devida à pessoa e a necessidade de informação de quem cuida. A resolução prática consiste em obter, com o consentimento da pessoa, autorização para partilha de informação relevante, e em recorrer, quando esse consentimento não exista, a informação genérica sobre a condição e sobre o modo de agir — que não está abrangida pelo sigilo e a que os familiares têm direito.
Por fim, importa registar que estas intervenções beneficiam também os familiares, e não apenas a pessoa com a condição — matéria tratada na pergunta seguinte.
Ver também as perguntas 87 (cuidar de si) e 104 (esquizofrenia e psicoses).
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