Fundamentos · Pergunta 14
Como posso avaliar se uma informação de saúde é de confiança?
O modelo de literacia em saúde adotado pela Direção-Geral da Saúde, na sequência da revisão de Sørensen et al. (2012), organiza-se em quatro dimensões — aceder à informação, compreender a informação, avaliar a informação e utilizar a informação — aplicadas a três domínios: os cuidados de saúde, a prevenção da doença e a promoção da saúde (Direção-Geral da Saúde, 2023). A terceira dimensão, avaliar, é a que exige maior esforço e a que menos frequentemente é ensinada.
A necessidade é hoje maior do que era. O volume de informação de saúde disponível excede em muito a capacidade de verificação individual, os conteúdos gerados por sistemas de inteligência artificial são indistinguíveis, à leitura, de conteúdos elaborados por peritos, e os algoritmos das plataformas selecionam por capacidade de retenção da atenção e não por exatidão. Em saúde mental, o problema agrava-se com a difusão de conteúdos de autodiagnóstico que apresentam sintomas inespecíficos como indicadores de perturbações específicas.
Sete verificações permitem um juízo razoável e podem ser feitas em poucos minutos. Primeira, a autoria: quem escreveu, com que formação e com que filiação institucional; a ausência de autoria identificada é, por si, motivo de reserva. Segunda, a data: quando foi publicado e quando foi revisto pela última vez; em saúde, informação com mais de cinco anos exige confirmação. Terceira, a fundamentação: as afirmações referem-se a estudos identificáveis, ou apoiam-se em experiência pessoal e testemunhos? Quarta, o interesse: quem financia o conteúdo e o que é vendido na mesma página.
Quinta, a linguagem: promessas de cura, afirmações de que a medicina convencional esconde a verdade, apelos a decidir depressa e recurso sistemático a histórias individuais em lugar de dados constituem indicadores fiáveis de conteúdo não confiável. Sexta, a coerência externa: a informação é confirmada por pelo menos uma fonte independente e reconhecida? Sétima, a proporcionalidade: uma afirmação extraordinária exige evidência extraordinária, e uma descoberta que altera o entendimento estabelecido raramente é comunicada primeiro numa rede social.
Em Portugal, as fontes com maior garantia de qualidade incluem os sítios institucionais do Serviço Nacional de Saúde e da Direção-Geral da Saúde, a Biblioteca de Literacia em Saúde do SNS, os documentos das ordens profissionais e as publicações de sociedades científicas. Para informação científica primária, as bases de dados de acesso aberto permitem consultar os estudos originais e não apenas a sua interpretação por terceiros.
Convém, por fim, distinguir três situações que são frequentemente confundidas. A informação falsa é factualmente errada. A informação enganosa é factualmente correta mas apresentada de modo a induzir conclusão indevida — por exemplo, comunicar um risco relativo sem indicar o risco absoluto, prática que transforma um aumento de dois para três casos por milhão num «aumento de 50%». E a informação incompleta omite a incerteza, e apresenta como estabelecido aquilo que é provisório. Esta página procurou evitar as três, ao indicar dimensões de efeito com os respetivos intervalos de confiança e ao assinalar quando a certeza da evidência é baixa.
Ver também as perguntas 2 (literacia em saúde mental) e 91 (onde me formar para ajudar melhor).
Informação geral: não substitui avaliação e cuidados individualizados. Consulte a política editorial e as fontes.