Perturbações · Pergunta 126

É possível prevenir a demência e como se cuida de uma pessoa com demência?

Em parte substancial, sim, e este é um dos desenvolvimentos mais relevantes da investigação recente. O relatório de 2024 da Comissão permanente da Lancet sobre prevenção, intervenção e cuidados na demência, coordenado por Livingston et al. (2024), identificou catorze fatores de risco modificáveis que, em conjunto, se associam a cerca de 45% dos casos de demência a nível mundial.

Os fatores identificados, distribuídos ao longo do ciclo de vida, são: na fase precoce da vida, o baixo nível de escolaridade; na meia-idade, a perda auditiva, o colesterol elevado, a depressão, o traumatismo craniano, a inatividade física, a diabetes, o tabagismo, a hipertensão, a obesidade e o consumo excessivo de álcool; e na fase tardia, o isolamento social, a poluição atmosférica e a perda de visão não corrigida. A Comissão acrescentou nesta edição o colesterol elevado e a perda de visão à lista anterior.

Estas estimativas devem ser lidas com precisão. Referem-se à fração populacional atribuível, isto é, à proporção de casos que poderiam teoricamente ser evitados se o fator fosse eliminado da população, e assentam em associações observacionais cuja causalidade não está estabelecida para todos os fatores. Não significam que uma pessoa concreta que corrija todos os fatores fique imune. Significam, sim, que a demência não é uma consequência inevitável do envelhecimento e que existe margem de intervenção substancial.

Duas medidas merecem destaque prático por serem frequentemente ignoradas. A correção da perda auditiva com aparelhos, cuja subutilização é elevada e cuja associação com o risco de demência é uma das mais robustas. E a manutenção de atividade cognitiva, social e física combinadas, cuja evidência em ensaios multidomínio é mais favorável do que a de qualquer componente isolado.

Quanto ao tratamento com medicamentos, os inibidores da colinesterase e a memantina produzem benefícios sintomáticos modestos em determinadas fases e tipos de demência, sem alterar o curso da doença. Surgiram recentemente anticorpos monoclonais dirigidos à proteína amiloide, com efeito estatisticamente demonstrado na desaceleração do declínio em fases iniciais da doença de Alzheimer, cuja relevância clínica, perfil de segurança e custo permanecem objeto de debate ativo e cuja disponibilidade em Portugal é limitada.

As intervenções não farmacológicas constituem a base do cuidado e são frequentemente subvalorizadas. Incluem a estimulação cognitiva estruturada, com evidência de benefício sobre a cognição e a qualidade de vida; a atividade física; a reminiscência; a musicoterapia; a adaptação do ambiente, com sinalética, iluminação adequada, redução de ruído e eliminação de riscos de queda; e a manutenção de rotinas previsíveis.

Os sintomas psicológicos e comportamentais — agitação, agressividade, deambulação, alterações do sono, apatia, sintomas psicóticos — constituem a principal fonte de sofrimento para a pessoa e de sobrecarga para quem cuida. A abordagem de primeira linha é não farmacológica e assenta na identificação da causa: dor não reconhecida e não comunicável, infeção, obstipação, retenção urinária, ambiente excessivamente estimulante, tédio, necessidade não satisfeita, alteração de rotina ou de pessoa cuidadora. Os antipsicóticos, frequentemente utilizados nestas situações, associam-se a aumento da mortalidade e de acidente vascular cerebral nesta população, e a sua utilização deve ser excecional, em dose mínima, por período limitado e com reavaliação regular.

Para quem cuida, orientações práticas com sustentação: comunicar em frases curtas, uma ideia de cada vez, com contacto visual e sem sobreposição de estímulos; não discutir nem corrigir insistentemente conteúdos incorretos, o que gera conflito sem benefício; validar a emoção que está por trás em vez do conteúdo factual; simplificar escolhas; manter rotinas; preservar a autonomia possível, ainda que a tarefa demore mais; e antecipar as decisões legais e financeiras enquanto a pessoa mantém capacidade. E, sobretudo, procurar apoio: a sobrecarga de quem cuida de pessoa com demência é das mais elevadas documentadas, e existem respostas — centro de dia, apoio domiciliário, descanso do cuidador, associações — cuja utilização precoce prolonga a permanência da pessoa no domicílio.

Ver também as perguntas 87 (cuidar de si) e 90 (apoios sociais).

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