Fundamentos · Pergunta 12
O que é o estigma e como pode ser combatido?
Estigma é o processo de marcar e desvalorizar uma pessoa ou grupo através de ideias negativas, julgamento e exclusão. Manifesta-se em três níveis. No estigma público, estereótipos — ideias generalizadas sobre um grupo — alimentam preconceitos — julgamentos formados sem conhecimento suficiente — e comportamentos discriminatórios na comunidade. O autoestigma ocorre quando a pessoa interioriza essas mensagens, passa a acreditar que tem menos valor e retrai a própria participação. O estigma estrutural surge em leis, políticas, serviços ou práticas institucionais que limitam direitos, recursos ou oportunidades.
As consequências estão bem documentadas. O estigma atrasa a procura de ajuda, reduz a adesão ao tratamento, agrava o isolamento, diminui as oportunidades de emprego e de habitação e associa-se a pior qualidade de vida e a maior risco de comportamento suicidário. Thornicroft et al. (2016) sublinham que os efeitos do estigma e da discriminação são frequentemente descritos por quem os vive como piores do que os das próprias condições clínicas.
Quanto ao que funciona, a evidência é razoavelmente convergente. A revisão narrativa de Thornicroft et al. (2016), que sintetizou revisões sistemáticas e dados primários à escala global, identificou o contacto social — o encontro direto ou mediado com pessoas com experiência vivida — como a intervenção mais eficaz na melhoria do conhecimento e das atitudes a curto prazo. A metanálise de Morgan, Reavley, et al. (2018), que integrou 62 ensaios clínicos aleatorizados sobre estigma dirigido a pessoas com doença mental grave, quantificou os efeitos: as intervenções de contacto produziram reduções pequenas a médias nas atitudes estigmatizantes (d = 0,39; IC 95% [0,22; 0,55]) e no desejo de distância social (d = 0,59; IC 95% [0,37; 0,80]), embora estes valores diminuíssem após ajuste para o enviesamento de publicação (para 0,24 e 0,40, respetivamente). As intervenções educativas produziram efeitos de dimensão semelhante, e a combinação de ambas não se revelou superior a qualquer uma isoladamente.
Duas limitações merecem destaque. Primeira: os efeitos no seguimento são consistentemente menores e frequentemente não significativos, o que indica que os ganhos se atenuam sem reforço. Segunda: a maioria dos estudos mede atitudes autorrelatadas e não comportamento observado, pelo que a tradução dos ganhos atitudinais em alteração efetiva de práticas permanece pouco documentada.
Em Portugal, o estudo transversal de Simões de Almeida et al. (2023), realizado com 928 participantes de um município do norte do país, verificou que o estigma diminui à medida que aumenta a literacia em saúde mental, com correlações entre 0,11 e 0,38, e que os níveis de estigma são mais elevados nas pessoas mais velhas e menos escolarizadas, e menores nas mulheres e nos profissionais de saúde. Este resultado sustenta a articulação entre as duas linhas de intervenção e recomenda a segmentação das campanhas por perfil populacional, em vez de mensagens indiferenciadas.
A leitura prudente da evidência conduz a quatro orientações. O combate ao estigma exige continuidade, dado que campanhas isoladas produzem efeitos transitórios. Exige a participação central de pessoas com experiência vivida, e não apenas o discurso de profissionais sobre elas. Exige a articulação com alterações estruturais — financiamento, legislação, práticas de contratação —, sem as quais a mudança de atitudes não altera as oportunidades. E exige atenção ao estigma dentro dos próprios serviços de saúde, onde a investigação documenta níveis de atitudes negativas comparáveis aos da população geral.
Cada pessoa dispõe, por fim, de meios individuais de intervenção. A linguagem que utiliza, a disponibilidade para falar da própria experiência quando isso lhe for seguro, a recusa de partilhar conteúdos que ridicularizem a doença mental e a interpelação de comentários estigmatizantes no círculo próximo constituem contributos com efeito cumulativo.
Ver também as perguntas 2 (literacia) e 81 (que palavras usar).
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