Sinais e prevenção · Pergunta 35
Quais são os fatores protetores?
A investigação sobre resiliência — entendida não como traço individual mas como processo dinâmico de adaptação positiva perante dificuldades — identificou um conjunto reprodutível de fatores protetores, organizáveis nos mesmos três domínios dos fatores de risco.
No plano relacional, a presença de pelo menos uma pessoa adulta de referência estável, disponível e responsivo durante a infância é o preditor mais robusto de boa evolução perante dificuldades, resultado que atravessa décadas de estudos longitudinais e diferentes contextos culturais. Não é necessário que seja uma das figuras parentais: pode ser alguém da família alargada, da docência, do treino desportivo ou da vizinhança podem desempenhar esta função. Na vida adulta, a existência de pelo menos uma relação de confiança em que seja possível falar com franqueza tem valor equivalente.
No plano individual, contam-se as competências de regulação emocional, a autoeficácia percebida — a convicção de ser capaz de influenciar o curso dos acontecimentos —, a flexibilidade cognitiva, o sentido de propósito, a capacidade de pedir ajuda e a literacia em saúde mental. Merece nota que várias destas competências são treináveis e que a sua promoção é o objeto de programas escolares e comunitários com eficácia documentada.
No plano comunitário e estrutural, contam-se a coesão social e a eficácia coletiva do bairro, o acesso efetivo a cuidados de saúde, a segurança, a existência de oportunidades educativas e laborais, a estabilidade habitacional, a proteção social e a existência de espaços públicos utilizáveis. A investigação sobre desigualdade documenta que sociedades mais igualitárias apresentam menores prevalências de perturbação mental, independentemente do rendimento absoluto.
Três esclarecimentos importam. O primeiro é que os fatores protetores não são o simples inverso dos fatores de risco: operam por mecanismos parcialmente distintos, e a ausência de risco não equivale à presença de proteção. O segundo é que não são inatos nem imutáveis — são construídos, podem ser reforçados em qualquer fase da vida e podem também perder-se. O terceiro é que a sua distribuição na população é desigual e sobrepõe-se, de forma inversa, à distribuição dos fatores de risco: quem mais precisa de proteção é frequentemente quem menos acesso tem a ela.
Existe ainda uma reserva conceptual que merece registo. O discurso sobre resiliência tem sido criticado por, quando aplicado sem contexto, deslocar para a pessoa a responsabilidade por suportar condições que não deveriam existir. Exigir resiliência a quem vive em pobreza, em violência ou em precariedade, sem alterar essas condições, é uma forma de responsabilização indevida. A leitura correta é que a resiliência descreve o que permite a algumas pessoas resistir, e não o que se deve exigir a todas.
Para efeitos práticos, a lista de fatores protetores traduz-se em objetivos concretos: assegurar a uma criança a presença de uma pessoa adulta estável; cultivar deliberadamente pelo menos uma relação de confiança; treinar competências de regulação; construir sentido através de atividade valorizada; manter ligação a uma comunidade; e conhecer, antes de precisar, onde e como pedir ajuda. É esta última finalidade que esta página procura servir.
Ver também as perguntas 2 (literacia) e 52 (recuperação).
Informação geral: não substitui avaliação e cuidados individualizados. Consulte a política editorial e as fontes.