Perturbações · Pergunta 114

Que perturbações do neurodesenvolvimento existem além do autismo e da PHDA?

Além do autismo e da perturbação de hiperatividade e défice de atenção, o grupo integra várias condições frequentes, com identificação habitualmente escolar e com impacto substancial na saúde mental quando não reconhecidas.

A dificuldade intelectual do desenvolvimento — designação atual, que substituiu termos hoje considerados pejorativos — caracteriza-se por limitações significativas do funcionamento intelectual e do comportamento adaptativo, com início no período de desenvolvimento. A classificação por grau assenta hoje no nível de apoio necessário e no funcionamento adaptativo nos domínios conceptual, social e prático, e não apenas no quociente intelectual. As pessoas com esta condição apresentam risco acrescido de perturbação mental, de vitimação e de problemas de saúde física, e enfrentam de forma particularmente marcada o fenómeno do ensombramento diagnóstico, em que sintomas de outras condições são atribuídos à dificuldade intelectual e não investigados.

As perturbações específicas da aprendizagem caracterizam-se por dificuldades persistentes e inesperadas na aquisição de competências académicas, apesar de ensino adequado e de capacidade intelectual preservada. Incluem a dislexia, com dificuldade na leitura exata e fluente e na descodificação; as dificuldades na expressão escrita, com dificuldades na ortografia, na pontuação e na organização do texto; e a discalculia, com dificuldade no sentido do número, na memorização de factos aritméticos e no raciocínio matemático. A intervenção com melhor evidência é a instrução explícita, estruturada e intensiva, associada a adaptações — tempo adicional, leitura em voz alta dos enunciados, recurso a tecnologia de apoio.

A perturbação do desenvolvimento da linguagem caracteriza-se por dificuldades persistentes na aquisição e na utilização da linguagem, na compreensão ou na expressão, sem que sejam explicadas por défice sensorial, por dificuldade intelectual ou por outra condição. É frequente e substancialmente subdiagnosticada, em parte porque as crianças afetadas são frequentemente descritas como distraídas, desinteressadas ou opositivas, quando na realidade não compreendem instruções verbais complexas. A intervenção da terapia da fala apresenta evidência favorável.

A perturbação do desenvolvimento da coordenação motora, ainda designada por dispraxia, caracteriza-se por aquisição e execução de competências motoras coordenadas substancialmente abaixo do esperado, com interferência nas atividades de vida diária e no desempenho escolar. Manifesta-se em dificuldades no manuseamento de objetos, na escrita manual, no vestir, no equilíbrio e nas atividades desportivas, e associa-se frequentemente a evitação da atividade física e a menor participação social — com consequências previsíveis sobre a saúde física e o bem-estar. A intervenção da terapia ocupacional e da fisioterapia, orientada para tarefas concretas, apresenta evidência favorável.

As perturbações de tiques caracterizam-se por movimentos ou vocalizações súbitos, rápidos, recorrentes e não rítmicos. A síndrome de Tourette exige a presença de múltiplos tiques motores e de pelo menos um tique vocal, com duração superior a um ano. Importa desfazer dois equívocos: a vocalização obscena, que a representação mediática associa à condição, ocorre numa minoria dos casos; e os tiques não são voluntários, embora possam ser temporariamente suprimidos ao custo de tensão crescente. A intervenção comportamental de reversão de hábito e a intervenção comportamental abrangente para tiques apresentam a melhor evidência, com o tratamento com medicamentos reservado aos casos com maior impacto funcional.

Atravessa todo este grupo uma constatação com consequências práticas. A identificação precoce, as adaptações educativas e a explicação à própria pessoa e à família alteram substancialmente a trajetória — não por eliminarem a condição, mas por evitarem a acumulação de experiências de fracasso atribuído a falta de esforço ou de capacidade. É essa acumulação, e não a condição em si, que melhor explica as taxas elevadas de depressão, de ansiedade e de abandono escolar nesta população.

Ver também as perguntas 109 (perturbações do neurodesenvolvimento) e 32 (crianças e adolescentes).

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