Cuidar no dia a dia · Pergunta 23

A alimentação influencia a saúde mental?

A investigação em psiquiatria nutricional consolidou-se na última década e permite hoje afirmações mais precisas do que as generalidades habituais. O objeto de estudo deslocou-se dos nutrientes isolados para o padrão alimentar global, deslocação metodologicamente decisiva: os nutrientes não são consumidos isoladamente e os seus efeitos interagem.

A metanálise de Bizzozero-Peroni et al. (2025), publicada na Nutrition Reviews, reuniu cinco ensaios clínicos aleatorizados com 1 507 participantes com idade adulta com depressão major ou presença de sintomas de depressão ligeira a moderada. As intervenções baseadas no padrão alimentar mediterrânico produziram uma redução significativa dos sintomas depressivos face às condições de controlo (DMP = -0,53; IC 95% [-0,90; -0,16]), com heterogeneidade elevada (I² = 87,1%) e intervalo de predição que atravessava o zero (-1,86 a 0,81). O risco de enviesamento foi classificado entre «algumas preocupações» e «elevado», e a certeza da evidência segundo a metodologia GRADE foi classificada como baixa.

Esta última informação é importante e raramente é comunicada. Uma diferença média padronizada de -0,53 corresponde a um efeito de magnitude média, comparável ao de alguns tratamentos estabelecidos. Mas a certeza baixa significa que investigação futura tem probabilidade substancial de alterar a estimativa. Uma metanálise posterior, que aplicou critérios de inclusão distintos, não encontrou efeito significativo, o que ilustra a fragilidade do corpo de evidência. A conclusão honesta é que o padrão mediterrânico é promissor na depressão, e não que esteja demonstrado.

Em sentido convergente e com base observacional mais ampla, estudos de coorte prospetivos associam de forma consistente o consumo elevado de alimentos ultraprocessados a maior risco de perturbações mentais comuns, com relações dose-resposta documentadas. Os mecanismos propostos envolvem a inflamação sistémica de baixo grau, a composição e a diversidade da microbiota intestinal, a disponibilidade de precursores de neurotransmissores, a variabilidade glicémica e o défice de micronutrientes.

Do ponto de vista prático, o padrão com maior sustentação caracteriza-se pelo consumo abundante de hortícolas e de fruta, de leguminosas, de cereais integrais, de frutos oleaginosos e de azeite; pelo consumo regular de pescado; pelo consumo moderado de laticínios e de aves; e pela limitação de carnes vermelhas processadas, de produtos de confeitaria, de bebidas açucaradas e de alimentos ultraprocessados em geral. A diversidade vegetal — o número de espécies distintas consumidas por semana — surge em vários estudos como preditor independente, associado à diversidade da microbiota.

Existem situações específicas que merecem atenção clínica. As dietas muito restritivas, por exemplo as adotadas por motivos de saúde, podem originar défices de vitamina B12, de ferro, de vitamina D, de folato, de zinco e de ácidos gordos de cadeia longa, todos com repercussão possível sobre o humor e a cognição. A restrição alimentar marcada e a preocupação excessiva com a alimentação podem, elas próprias, constituir manifestação de perturbação do comportamento alimentar. E a suplementação indiscriminada não substitui o padrão alimentar: a evidência de eficácia de suplementos isolados sobre o humor é, na generalidade, fraca, com exceção parcial dos ácidos gordos ómega-3 na depressão e da correção de défices documentados.

A leitura prudente é a seguinte: um padrão alimentar mediterrânico, ou equivalente predominantemente vegetal e pouco processado, é uma medida sensata de promoção da saúde mental, com benefícios cardiometabólicos indiscutíveis que justificam a sua adoção mesmo que o efeito sobre o humor venha a revelar-se menor do que o estimado. Não substitui, em caso algum, o tratamento de uma perturbação estabelecida, e a sua apresentação como alternativa à psicoterapia ou à medicação carece de fundamento.

Ver também as perguntas 4 (prevalência) e 48 (medicação).

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