Perturbações · Pergunta 97

A depressão volta? Como prevenir a recorrência?

Sim, com frequência elevada, e este é um dos aspetos menos comunicados às pessoas no momento do diagnóstico. A depressão é, na maioria dos casos, uma condição recorrente e não um episódio único. As estimativas apontam para que cerca de metade das pessoas que tiveram um episódio venha a ter outro, e a probabilidade aumenta com cada episódio subsequente — cerca de 70% após dois episódios e 90% após três, segundo estimativas clássicas que estudos posteriores matizaram mas não contradisseram na direção.

Vários fatores aumentam o risco de recorrência: o número de episódios prévios, que é o preditor mais robusto; a presença de sintomas residuais no momento da remissão, mesmo ligeiros; o início precoce; a gravidade do episódio índex; a comorbilidade, por exemplo ansiosa e por uso de substâncias; a persistência de insónia; os antecedentes familiares; as experiências adversas na infância; e a manutenção de fatores de stresse crónicos não resolvidos.

Deste conjunto decorre uma prioridade clínica frequentemente subestimada: a remissão completa, e não apenas a resposta. A resposta define-se convencionalmente como redução de pelo menos 50% na pontuação de uma escala; a remissão exige a ausência de sintomas clinicamente significativos. Pessoas que respondem sem remitir apresentam risco de recaída substancialmente superior, pelo que a persistência de sintomas residuais deve motivar otimização do tratamento e não conformação com a melhoria parcial.

As estratégias de prevenção com melhor evidência são três. A primeira é a manutenção do antidepressivo na dose que produziu a remissão, com duração ajustada ao risco individual. A segunda é a psicoterapia, que apresenta uma vantagem específica documentada em metanálises de seguimento a longo prazo: os seus efeitos preventivos persistem após o termo do tratamento, o que não sucede com a medicação, cujo efeito protetor cessa com a descontinuação. Esta diferença é clinicamente relevante para quem não pretende manter medicação indefinidamente, e sustenta a inclusão de intervenção psicológica no plano mesmo quando a resposta farmacológica foi satisfatória.

A terceira é a terapia cognitiva baseada na atenção plena, desenvolvida especificamente para a prevenção de recaída em pessoas com três ou mais episódios prévios, com eficácia comparável à da manutenção do antidepressivo e com a vantagem de constituir alternativa para quem prefere não manter medicação a longo prazo.

Completam o quadro medidas de autogestão com fundamento: a identificação e o registo dos sinais precoces pessoais de recaída, que são idiossincráticos e frequentemente diferentes dos sintomas clássicos; o plano escrito de resposta antecipada, partilhado com a equipa e com pessoa de confiança; a regularidade dos ritmos de sono e de atividade; a manutenção da atividade física; o tratamento da insónia residual; a limitação do consumo de álcool; e a antecipação de períodos de risco conhecido, por exemplo datas com significado, transições e alterações da medicação.

Uma nota final sobre a comunicação deste facto. Informar sobre o risco de recorrência não é pessimismo nem profecia: é a condição para que a pessoa reconheça precocemente o regresso dos sintomas e procure ajuda em dias e não em meses. A deteção precoce de uma recaída altera substancialmente a sua duração e a sua gravidade.

Ver também as perguntas 50 (interromper a medicação) e 54 (autogestão).

Informação geral: não substitui avaliação e cuidados individualizados. Consulte a política editorial e as fontes.