Tratamento e recuperação · Pergunta 50
Posso interromper a medicação quando me sentir melhor?
Uma pessoa adulta com capacidade pode retirar o consentimento e decidir interromper medicação, salvo as exceções legais estritas aplicáveis. Isso não significa que seja seguro parar de forma abrupta: a decisão sobre continuar e a forma clínica de reduzir são questões diferentes. A melhoria sintomática pode indicar que o tratamento está a resultar, e não necessariamente que deixou de ser necessário Entidade Reguladora da Saúde, 2026.
Nas perturbações depressivas, as orientações internacionais recomendam a continuação do antidepressivo, na dose que produziu a remissão, durante seis a doze meses após a resolução dos sintomas num primeiro episódio. Em pessoas com dois ou mais episódios prévios, com episódio grave, com sintomas residuais ou com fatores de risco de recorrência, recomendam-se períodos substancialmente mais prolongados, por vezes indefinidos. A metanálise de tratamento de manutenção documenta reduções significativas da taxa de recaída aos seis meses com a continuação face à substituição por placebo.
Na perturbação bipolar e na esquizofrenia, a questão coloca-se de forma ainda mais nítida. A revisão Cochrane atualizada por Ceraso et al. (2022), que reuniu 75 ensaios e 9 145 participantes, verificou que a manutenção do antipsicótico se associa a recaída em 24% dos casos ao ano, contra 61% com placebo (RR = 0,38; IC 95% [0,32; 0,45]), com redução paralela do internamento (7% contra 18%), melhoria da qualidade de vida e do funcionamento social, e maior probabilidade de remissão sustentada. Estes benefícios devem ser ponderados contra possíveis efeitos secundários reais, por exemplo as alterações do movimento e o aumento de peso.
A investigação sobre estratégias de redução acrescenta informação relevante. Ostuzzi et al. (2022) verificaram, em metanálise em rede de 98 ensaios e 13 988 participantes, que continuar na dose padrão e mudar de antipsicótico apresentam eficácia semelhante na prevenção de recaída, enquanto reduzir a dose abaixo do intervalo padrão aumenta significativamente o risco (RR = 0,55 a favor da continuação face à redução). A redução de dose não é, portanto, uma estratégia neutra e deve ser reservada a situações selecionadas e com vigilância próxima.
A interrupção abrupta produz dois problemas distintos que importa não confundir. O primeiro são os sintomas de descontinuação, descritos na pergunta anterior, que surgem em dias e se resolvem em semanas. O segundo é a recaída da condição, que surge habitualmente em semanas a meses e cujos sintomas são os da doença original. Confundir os primeiros com a segunda leva a conclusões erradas em ambos os sentidos: pode fazer crer que a doença regressou quando se trata de descontinuação, ou pode fazer atribuir à descontinuação uma recaída verdadeira.
Existem motivos legítimos para querer interromper, e devem ser apresentados sem receio: possíveis efeitos secundários intoleráveis, por exemplo disfunção sexual, aumento de peso ou embotamento emocional; planeamento de gravidez; interações com outra medicação; sensação de que o medicamento deixou de ser necessário; ou simples preferência por não manter medicação a longo prazo. Cada um destes motivos tem resposta possível — ajuste de dose, mudança de medicamento, estratégia de gestão do efeito adverso, plano de descontinuação gradual com vigilância — e nenhum deles justifica a interrupção unilateral e silenciosa, que é a opção com pior prognóstico.
Quando a decisão de descontinuar for tomada, três elementos aumentam a segurança: a redução gradual, com esquema definido e ajustável em função dos sintomas; a definição prévia dos sinais de recaída e do que fazer se surgirem, idealmente registada por escrito e partilhada com alguém de confiança; e a escolha de um período de estabilidade nas restantes áreas da vida, de modo a não fazer coincidir a descontinuação com mudanças de emprego, lutos ou outras transições.
Ver também as perguntas 36 (sinais precoces), 62 (diretivas antecipadas), 186 (consentimento) e 188 (decisão partilhada).
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