Sinais e prevenção · Pergunta 36
Que sinais precoces devem levar-me a procurar ajuda?
O critério que melhor distingue o sofrimento normal da situação que beneficia de avaliação não é a intensidade isolada de um sintoma, mas a conjugação de três elementos: a alteração persistente face ao funcionamento habitual da própria pessoa, a duração superior a duas semanas e a repercussão na vida diária — no trabalho, no estudo, nas relações ou no autocuidado.
Entre os sinais que merecem atenção contam-se a alteração marcada do sono, quer por insónia quer por hipersonolência; a alteração do apetite e do peso; a perda de interesse ou de prazer em atividades anteriormente gratificantes, que é um dos indicadores mais específicos de depressão; a fadiga desproporcionada ao esforço; a irritabilidade persistente, frequentemente a manifestação predominante em homens e em adolescentes; a dificuldade de concentração e de tomada de decisão; o afastamento social progressivo; e o aumento do consumo de álcool ou de outras substâncias.
Merecem igual atenção sinais menos reconhecidos. A queixa física persistente sem explicação médica após investigação adequada — cefaleias, dor abdominal, dor torácica, tonturas — é apresentação frequente de perturbação depressiva e de ansiedade, sobretudo em contextos culturais que desencorajam a expressão emocional direta. A ansiedade que limita a atividade, com evitação progressiva de situações, lugares ou pessoas. A preocupação excessiva e incontrolável. A sensação de irrealidade ou de estranheza em relação a si próprio ou ao ambiente. E qualquer alteração da perceção — ouvir vozes, ver coisas que outros não veem — ou do juízo da realidade, por exemplo a desconfiança desproporcionada e as ideias de referência.
Na infância e na adolescência, os sinais assumem frequentemente formas comportamentais: queda inexplicada do rendimento escolar, recusa da escola, alterações bruscas do grupo de amigos, irritabilidade e oposição, queixas físicas recorrentes em dias de aulas, regressão de competências já adquiridas, marcas de autolesão e alterações marcadas de aparência ou de hábitos.
Nas pessoas idosas, a apresentação difere igualmente. A depressão manifesta-se mais frequentemente por queixas físicas, por apatia, por queixas cognitivas e por irritabilidade do que por tristeza verbalizada, o que contribui para o subdiagnóstico. A queixa de memória de início recente exige avaliação, dado que pode traduzir depressão, défice sensorial, efeito de medicação ou deterioração cognitiva, com condutas distintas em cada caso.
Existem situações que exigem avaliação imediata, sem período de espera. A referência a pensamentos de morte, de autolesão ou de suicídio é sempre indicação de avaliação, independentemente de a pessoa parecer estar bem noutros aspetos. O mesmo se aplica à incapacidade de assegurar as necessidades básicas, à alteração do juízo da realidade, à agitação com risco e ao consumo descontrolado de substâncias.
Um obstáculo prático merece ser antecipado: a dificuldade em reconhecer, a partir de dentro, uma alteração gradual. A depressão altera a interpretação do próprio estado — a pessoa tende a atribuir a falta de energia a preguiça e o desânimo a lucidez sobre a realidade —, o que explica que a sinalização venha frequentemente de terceiros. Vale a pena, por isso, dar crédito à observação de quem está próximo, mesmo quando não coincide com a autoavaliação.
Ver também as perguntas 37 (quanto tempo esperar) e 80 (como ajudar alguém).
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