Tratamento e recuperação · Pergunta 48

A medicação é sempre necessária?

Não. A indicação depende do diagnóstico, da gravidade, da duração, do risco associado, da resposta a tratamentos anteriores e da preferência informada da pessoa. A resposta varia substancialmente entre condições e merece ser tratada com essa granularidade.

Nas perturbações depressivas ligeiras, as orientações internacionais recomendam a intervenção psicológica como primeira linha, com a medicação reservada para os casos de resposta insuficiente, de preferência expressa da pessoa ou de indisponibilidade de psicoterapia. A diferença entre antidepressivo e placebo é, nestes quadros, pequena, e o balanço entre benefício e possíveis efeitos secundários menos favorável.

Nos quadros depressivos moderados a graves, a evidência é distinta. A metanálise em rede de Cuijpers et al. (2020), que reuniu 101 estudos e 11 910 participantes, verificou que o tratamento combinado — psicoterapia e farmacoterapia — foi mais eficaz do que a psicoterapia isolada (RR = 1,27; IC 95% [1,14; 1,39]) e do que a farmacoterapia isolada (RR = 1,25; IC 95% [1,14; 1,37]) na obtenção de resposta, sem diferença significativa entre psicoterapia e farmacoterapia isoladas (RR = 0,99; IC 95% [0,92; 1,08]). Quanto à aceitabilidade, o tratamento combinado e a psicoterapia isolada foram superiores à farmacoterapia isolada. A revisão de Simon et al. (2024) confirma este padrão, com diferenças médias padronizadas de 0,30 para o tratamento combinado face à psicoterapia isolada e de 0,33 face à medicação isolada.

Nas perturbações psicóticas — condições em que alterações da perceção e do pensamento podem dificultar distinguir o que é real, como ouvir vozes sem origem externa —, na perturbação bipolar e em determinados quadros graves, a medicação é a base do tratamento e a sua omissão associa-se a risco elevado. Nas perturbações de ansiedade, a psicoterapia com exposição apresenta eficácia pelo menos equivalente à da medicação e vantagem na manutenção dos ganhos após o termo do tratamento. National Institute of Mental Health, s.d.

É útil compreender a magnitude dos efeitos dos antidepressivos, matéria objeto de controvérsia pública. A metanálise em rede de Cipriani et al. (2018), que reuniu 522 ensaios clínicos e 116 477 participantes — o maior corpo de evidência disponível — verificou que todos os 21 antidepressivos estudados foram mais eficazes do que o placebo, com razões de possibilidades entre 1,37 (IC 95% [1,16; 1,63]) para a reboxetina e 2,13 (IC 95% [1,89; 2,41]) para a amitriptilina. Quanto à aceitabilidade, apenas a agomelatina e a fluoxetina apresentaram menos abandonos do que o placebo. A certeza da evidência foi classificada entre moderada e muito baixa, e as diferenças entre medicamentos ativos foram pequenas quando se consideraram todos os ensaios.

A leitura equilibrada destes resultados é a seguinte: os antidepressivos funcionam, com efeito real mas modesto ao nível populacional, e as diferenças entre eles são menores do que a variabilidade individual de resposta e de tolerabilidade. Isto significa que a escolha do medicamento deve orientar-se predominantemente pelo perfil de possíveis efeitos secundários, pelas comorbilidades, pelas interações e pela resposta prévia, e não por uma suposta hierarquia de potência.

A decisão deve resultar de tomada de decisão partilhada, na qual a pessoa é informada do benefício esperado em termos compreensíveis, dos possíveis efeitos secundários possíveis e da sua frequência, do tempo previsível até ao efeito, da duração provável do tratamento e das alternativas existentes, incluindo a opção de não tratar farmacologicamente. Consentir não é obedecer nem assinar um formulário: exige liberdade, informação e possibilidade de retirar a decisão. Uma recusa informada deve ser acompanhada, não sancionada, sem prejuízo das exceções legais estritas relativas ao tratamento involuntário Entidade Reguladora da Saúde, 2026 Lei n.º 35/2023.

Ver também as perguntas 49 (dependência), 50 (interrupção), 186 (consentimento) e 188 (decisão partilhada).

Informação geral: não substitui avaliação e cuidados individualizados. Consulte a política editorial e as fontes.