Tratamento e recuperação · Pergunta 49
Os antidepressivos causam dependência? Quanto tempo demoram a fazer efeito?
Importa distinguir adição de dependência física. Adição envolve desejo intenso e perda de controlo sobre o consumo; dependência física significa que o organismo se adaptou à presença do medicamento. Os antidepressivos podem provocar esta adaptação e sintomas de privação quando a dose diminui ou o tratamento termina. Ter dificuldade em parar não deve ser desvalorizado nem interpretado como uma falha pessoal Royal College of Psychiatrists, s.d..
Os sintomas de privação, também chamados sintomas de descontinuação, podem incluir tonturas, náuseas, sensações de choque elétrico, ansiedade e alterações do sono. Podem surgir após reduzir a dose ou interromper o medicamento e, por vezes, confundem-se com o regresso do problema inicial. A relação temporal com a alteração da dose e o tipo de sintomas ajudam a avaliação, mas não permitem uma distinção automática Royal College of Psychiatrists, s.d..
A intensidade e a duração dos sintomas variam entre pessoas e medicamentos. A redução deve ser combinada com o prescritor, ajustada à resposta e revista se surgirem dificuldades. Algumas pessoas precisam de reduções mais pequenas e de um processo mais demorado, sobretudo após uso prolongado ou experiências anteriores de privação. Não existe um calendário único adequado a todas as pessoas. Evite interromper abruptamente por iniciativa própria Royal College of Psychiatrists, s.d..
Quanto ao tempo até ao efeito, importa desfazer expectativas erradas em ambos os sentidos. O início do efeito terapêutico ocorre, em regra, entre a segunda e a quarta semana, com melhoria mensurável já na primeira ou segunda semana em muitos casos, e com resposta plena habitualmente avaliada às seis a oito semanas. A ideia de que os antidepressivos demoram um mês a começar a agir é uma simplificação: a investigação com medições precoces documenta início de melhoria anterior, e a ausência total de melhoria às duas semanas é preditor de resposta improvável, o que justifica reavaliação nesse momento e não a espera passiva.
Alguns possíveis efeitos secundários surgem antes do benefício e explicam parte substancial dos abandonos precoces: náuseas, cefaleia, inquietação, insónia ou sonolência, e aumento transitório da ansiedade nos primeiros dias. A maioria atenua-se em uma a duas semanas. Informar previamente sobre esta sequência melhora comprovadamente a adesão. Outros efeitos são persistentes e devem ser explicitados na decisão inicial, por exemplo a disfunção sexual, frequente e frequentemente não comunicada por vergonha, e o aumento de peso com alguns medicamentos.
A vigilância não deve limitar-se a perguntar se a pessoa está «melhor». Nas primeiras revisões importa registar o que mudou no sono, ansiedade, agitação, humor, pensamentos de morte, função sexual, apetite, peso e capacidade de trabalhar ou estudar. Quem tem menos de 25 anos ou apresenta risco suicidário deve ter contacto clínico precoce depois de iniciar ou aumentar a dose; qualquer agravamento marcado, novo plano suicida ou comportamento muito acelerado e fora do habitual exige contacto no próprio dia National Institute for Health and Care Excellence, 2022.
Febre com agitação, suor intenso, diarreia, tremor, rigidez ou confusão pode indicar toxicidade serotoninérgica — excesso perigoso da atividade da serotonina, por vezes causado pela combinação de medicamentos ou suplementos — e exige avaliação urgente. Convulsão, perda de consciência, dificuldade em respirar, inchaço da face ou da língua ou intenção suicida imediata justificam ligar 112. Estes sinais são raros; conhecê-los não significa que devam ser esperados nem que um sintoma isolado confirme a causa. Perante efeitos menos urgentes mas persistentes, como disfunção sexual, embotamento emocional, insónia, sonolência ou aumento de peso, deve rever-se o plano em vez de sofrer em silêncio ou parar abruptamente.
Convém distinguir claramente este perfil do das benzodiazepinas, com as quais os antidepressivos são frequentemente confundidos. As benzodiazepinas produzem alívio da ansiedade em minutos, o que explica a sua popularidade, mas o uso continuado além de duas a quatro semanas associa-se a tolerância, a dependência física e psicológica, a alterações da memória e da atenção, a risco acrescido de queda e de fratura nas pessoas idosas, e a síndrome de privação que inclui ansiedade de ressalto frequentemente interpretada como recaída. A sua prescrição deve ser limitada no tempo, com plano de descontinuação definido no início e não improvisado no fim.
Uma última observação sobre a ideação suicida. Existe um aviso regulatório, sustentado por meta-análise de dados de ensaios clínicos, relativo a aumento de ideação e de comportamento suicidário em pessoas com menos de 25 anos nas primeiras semanas de tratamento. O risco absoluto é pequeno e deve ser ponderado contra o risco da depressão não tratada, que é substancialmente maior. A conduta indicada é a vigilância clínica próxima nas primeiras semanas, com contacto de reavaliação precoce, e não a recusa do tratamento.
Ver também as perguntas 50 (interromper a medicação), 67 (pensamentos de suicídio) e 181 (agir perante possíveis efeitos secundários).
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