Situações e comportamentos · Pergunta 134

Agressividade dirigida a si próprio: como agir?

O que se passa e porquê

A agressão dirigida ao próprio corpo abrange realidades distintas que exigem respostas distintas. A autolesão sem intenção suicida — cortes, queimaduras, arranhões, pancadas — tem habitualmente função de regulação: interrompe um estado emocional insuportável, quebra a dissociação e devolve sensação de controlo. A tentativa de suicídio tem outra intenção e outra resposta. A automutilação no contexto de psicose obedece a conteúdos delirantes ou a ordens alucinatórias e é emergência. E o comportamento autolesivo repetitivo em pessoas com condições do neurodesenvolvimento tem frequentemente função sensorial ou comunicativa, sobretudo quando não existe linguagem verbal disponível.

A confusão entre estas realidades produz erros graves em ambos os sentidos: tratar toda a autolesão como tentativa de suicídio é intrusivo e afasta a pessoa; tratar toda a autolesão como comportamento sem risco ignora que a autolesão é um dos preditores mais fortes de suicídio futuro.

O que a própria pessoa pode fazer

A substituição funcional é mais eficaz do que a proibição, porque respeita a função do comportamento. Estratégias com utilidade documentada incluem o gelo na mão, o elástico, a corrida ou o exercício intenso, o desenho a vermelho sobre a pele, o banho frio e o contacto com uma pessoa combinada. Nenhuma delas resolve o problema de fundo — resolvem o momento, e é isso que se pretende delas.

Duas medidas fazem diferença mensurável. A primeira é o adiamento estruturado: comprometer-se a esperar quinze minutos e a fazer algo concreto nesse intervalo; a urgência decresce e, com frequência, o episódio não ocorre. A segunda é a redução do acesso aos meios habituais, decidida pela própria pessoa em período de calma. E, se ocorrer autolesão, importa saber cuidar da ferida sem vergonha e procurar cuidados quando a lesão o exige — a recusa de tratar a ferida por receio de julgamento é causa evitável de complicações.

O que fazer quem acompanha

Manter a calma visível é a intervenção mais importante e a mais difícil. A reação de choque, de nojo ou de pânico ensina à pessoa que aquilo deve ser escondido, e a ocultação aumenta o risco. Tratar a ferida com naturalidade, como se trataria qualquer outra. Perguntar diretamente sobre intenção suicida — não aumenta o risco e é a única forma de saber. Perguntar o que a autolesão resolveu naquele momento, o que dá informação sobre a função e abre caminho a alternativas.

Combinar com a pessoa um plano de segurança e a redução do acesso aos meios, com o seu acordo sempre que possível. Assegurar seguimento especializado: existe intervenção com evidência, por exemplo a terapia comportamental dialética, dirigida precisamente a este comportamento.

O que nunca fazer

Não exigir promessas de que não voltará a acontecer — a promessa quebrada acrescenta vergonha e silêncio. Não chamar chamada de atenção, expressão que é falsa e destrutiva: mesmo quando existe comunicação dirigida a outros, a comunicação é real e o sofrimento também. Não fazer chantagem emocional com o sofrimento próprio. Não inspecionar o corpo sem consentimento nem expor as cicatrizes perante terceiros. Não retirar todos os objetos de casa de forma indiscriminada, o que é impraticável e comunica desconfiança total. E não confundir ausência de intenção suicida com ausência de risco.

Quando é urgência

Ferida profunda, hemorragia que não cede, lesão na face ou no pescoço, ingestão de substâncias, perda de consciência, ou autolesão com intenção suicida declarada ou provável. Também quando a autolesão ocorre em contexto de psicose, com conteúdo delirante ou com vozes de comando: nestes casos o risco de lesão grave é elevado e a urgência é psiquiátrica.

Ver também as perguntas 127 (autolesão não suicidária) e 67 (pensamentos de suicídio).

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