Perturbações · Pergunta 127

O que é a autolesão não suicidária?

A autolesão não suicidária designa a lesão deliberada e direta do próprio corpo, sem intenção suicida e sem sanção social. As formas mais frequentes são os cortes, as queimaduras, as escoriações, as pancadas e a interferência com a cicatrização de feridas. É particularmente prevalente na adolescência e no início da idade adulta, com estimativas populacionais que se situam habitualmente entre 15% e 20% em populações de adolescentes, e é frequentemente ocultada durante longos períodos.

A distinção face ao comportamento suicidário é conceptualmente clara e clinicamente importante: a intenção difere. A autolesão não suicidária visa, na maioria dos casos, aliviar um estado emocional insuportável, e não terminar a vida. Esta distinção não deve, contudo, produzir desvalorização: a autolesão não suicidária é um dos preditores mais robustos de comportamento suicidário futuro, e as duas formas coexistem frequentemente na mesma pessoa.

As funções identificadas na investigação são várias e não mutuamente exclusivas. A mais frequentemente relatada é a regulação emocional: a interrupção de um estado de tensão, de raiva ou de vazio intoleráveis. Seguem-se a autopunição, associada a vergonha e a autodesvalorização; a interrupção de estados dissociativos, com a dor a restabelecer a sensação de existir; e, em menor proporção, funções interpessoais — comunicar sofrimento quando as palavras não são ouvidas, ou obter resposta. A interpretação exclusivamente interpessoal — «é para chamar a atenção» — é empiricamente incorreta na maioria dos casos e produz respostas que agravam.

O significado e o padrão da autolesão variam entre pessoas e ao longo do tempo. Não se deve presumir que existe uma progressão inevitável, tolerância ou uma função única. A avaliação procura compreender o que antecede e o que se segue ao comportamento, as necessidades da pessoa e a sua segurança.

A resposta de quem descobre condiciona substancialmente o percurso. As reações que produzem pior resultado são o choque expresso com horror, a repreensão moral, a exigência de promessa imediata de cessação, a punição, a inspeção continuada do corpo e a vigilância que anula a privacidade. Estas reações aumentam a vergonha, que é o principal motor da ocultação, e transferem o comportamento para locais menos visíveis.

As respostas com melhor fundamento são: reagir com calma; assegurar os cuidados à lesão sem drama; comunicar preocupação sem juízo — «não estás em sarilhos, preocupo-me contigo»; perguntar sobre a função, não sobre o método — «o que é que estavas a sentir antes?», «o que é que isso te trouxe?»; distinguir explicitamente da intenção suicida, com pergunta direta sobre esta; e procurar avaliação profissional, apresentada como apoio e não como consequência disciplinar.

O tratamento deve ser individualizado e acordado com a pessoa, incluindo cuidados às lesões, avaliação do sofrimento e da segurança e desenvolvimento de estratégias alternativas. A escolha da intervenção depende da idade, das necessidades, das condições associadas e da evidência para a situação concreta. Não se deve adiar a avaliação nem condicionar o acesso ao apoio a uma promessa de cessação imediata.

Uma orientação prática relevante para famílias: reduzir o acesso a meios e assegurar que os meios mais perigosos não estão disponíveis é medida legítima e útil, desde que negociada e explicada, e não imposta como punição. E outra, para escolas e para grupos de pares: a exposição a comportamento autolesivo em contexto de grupo e em conteúdos digitais associa-se a contágio documentado, o que justifica cuidado na forma como o tema é abordado publicamente.

Ver também as perguntas 67 (pensamentos de suicídio) e 117 (perturbações da personalidade).

Informação geral: não substitui avaliação e cuidados individualizados. Consulte a política editorial e as fontes.