Situações e comportamentos · Pergunta 139

Alucinações: o que dizer e o que não dizer?

O que se passa e porquê

Uma alucinação é uma perceção sem estímulo externo correspondente, vivida com a mesma qualidade de uma perceção real. As auditivas são as mais frequentes na psicose; as visuais são mais frequentes na demência com corpos de Lewy, no delirium e nos quadros tóxicos; as táteis surgem sobretudo na abstinência e nos consumos. Existem também alucinações benignas: as que ocorrem no adormecer e no acordar, e as do síndrome de Charles Bonnet, em que pessoas com perda grave de visão veem imagens complexas com plena consciência de que não são reais.

O ponto essencial para quem acompanha é este: a experiência é real para quem a tem. O cérebro processa a voz alucinada nas mesmas áreas em que processa a voz externa. Dizer «não existe» é, do ponto de vista da pessoa, ser contrariada sobre algo que está a ouvir naquele momento — com o efeito previsível de perder o interlocutor.

O que a própria pessoa pode fazer

Existem estratégias de coping com utilidade documentada e que muitas pessoas desenvolvem por si. Ouvir música com auscultadores, sobretudo com voz cantada, compete diretamente com as vozes. Falar em voz alta ou ler em voz alta ocupa as mesmas vias. O ruído de fundo, a atividade que exige atenção e a companhia reduzem a intensidade. Anotar o que a voz diz e a que horas permite identificar padrões — as vozes agravam tipicamente com o cansaço, o isolamento, o stresse e o consumo de substâncias.

Uma distinção interna é particularmente útil e é ensinada nas intervenções cognitivo-comportamentais para a psicose: separar o facto de ouvir da obrigação de obedecer ou de acreditar. Não se controla o que se ouve; controla-se, com treino e com apoio, a relação com o que se ouve e o crédito que se lhe dá. As vozes de comando que ordenam agredir ou morrer devem ser sempre comunicadas à equipa que acompanha, sem exceção.

O que fazer quem acompanha

Perguntar sem confirmar e sem desmentir. A formulação que funciona é a distinção entre a perceção e a experiência: «eu não ouço nada, mas acredito que tu ouves — o que é que a voz está a dizer?». Esta frase mantém a honestidade e mantém a relação, que é o que se pretende. Perguntar pelo conteúdo, porque o conteúdo determina o risco: vozes que insultam produzem sofrimento; vozes que ordenam produzem perigo.

Perguntar pelo efeito emocional, que é frequentemente mais importante do que o conteúdo. Reduzir os estímulos que agravam: ruído, televisão ligada, muita gente a falar. Manter a companhia e a conversa sobre outros assuntos, porque a distração funciona. E registar as circunstâncias em que agravam, informação útil para a equipa.

O que nunca fazer

Não dizer «isso não existe» nem «é da tua cabeça». Não fingir que também ouve, o que valida a experiência como externa e agrava a desorganização. Não discutir nem tentar provar por argumentos que a voz não é real. Não rir nem tratar como excentricidade. Não falar da pessoa em voz baixa na sua presença, o que alimenta desconfiança. E não presumir que quem ouve vozes é perigoso: a esmagadora maioria não o é.

Quando é urgência

Vozes que ordenam agredir ou morrer, sobretudo quando a pessoa as descreve como difíceis de resistir. Alucinações visuais de instalação recente, que sugerem delirium, causa tóxica ou neurológica e não psicose. Alucinações acompanhadas de febre, confusão ou alteração do estado de consciência. E o primeiro episódio, que exige avaliação rápida — a duração da psicose não tratada é um dos preditores mais consistentes de pior evolução.

Ver também as perguntas 104 (psicose e esquizofrenia) e 106 (intervenção precoce).

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