Perturbações · Pergunta 104
O que é a psicose e o que é a esquizofrenia?
Psicose é um termo descritivo, não um diagnóstico. Designa um estado em que existe perda de contacto com a realidade partilhada, manifestado por alucinações, por delírios, por discurso ou comportamento desorganizados, ou por combinação destes. Pode ocorrer em múltiplas condições: na esquizofrenia, na perturbação bipolar, na depressão grave, na intoxicação ou privação de substâncias, em doenças neurológicas, em infeções, em perturbações autoimunes e em estados confusionais.
As alucinações são perceções sem estímulo externo correspondente. As mais frequentes na esquizofrenia são auditivas, habitualmente vozes que comentam, que dialogam entre si ou que dão ordens. São experienciadas como reais e externas, e não como pensamentos próprios. Os delírios são crenças firmemente mantidas apesar de evidência contrária, não partilhadas pelo grupo cultural da pessoa: de perseguição, de referência — a convicção de que acontecimentos neutros lhe são dirigidos —, de grandeza, de controlo, físicos ou místicos.
A esquizofrenia é uma perturbação específica, definida pela presença de sintomas característicos durante pelo menos um mês, com sinais de perturbação persistentes durante pelo menos seis meses e com repercussão significativa na funcionalidade. Afeta cerca de 0,3% a 0,7% da população ao longo da vida, com início habitual entre o final da adolescência e os trinta anos, mais precoce nos homens.
Os sintomas organizam-se em três dimensões, e a distinção importa porque respondem de forma diferente ao tratamento. Os sintomas positivos — alucinações, delírios, desorganização — são os mais visíveis e os que melhor respondem à medicação. Os sintomas negativos — embotamento afetivo, pobreza do discurso, avolição, anedonia, retraimento social — são menos visíveis, frequentemente confundidos com preguiça ou com depressão, respondem mal aos medicamentos disponíveis e são os que mais determinam o prognóstico funcional. Os sintomas cognitivos — alterações da atenção, da memória de trabalho e das funções executivas — estão presentes frequentemente antes do primeiro episódio e constituem o preditor mais robusto do funcionamento a longo prazo.
É essencial desfazer três equívocos com consequências práticas. Primeiro: a esquizofrenia não é dupla personalidade nem personalidade dividida. A confusão decorre da etimologia do termo e é reforçada pela ficção. Segundo: a maioria das pessoas com esquizofrenia não é violenta. O risco de violência aumenta sobretudo com consumo de substâncias, com sintomatologia psicótica aguda não tratada e com história prévia de violência, e as pessoas com esta condição são muito mais frequentemente vítimas do que autoras. Terceiro: o prognóstico não é uniformemente mau. Uma proporção substancial das pessoas apresenta recuperação sintomática e funcional significativa, e a heterogeneidade de percursos é a regra.
O curso típico compreende uma fase prodrómica, com alterações subtis do funcionamento, do afeto e da experiência que precedem o primeiro episódio, frequentemente durante meses ou anos; o primeiro episódio psicótico; e uma evolução variável, com episódios recorrentes em muitos casos e com estabilização em outros. A duração da psicose não tratada — o intervalo entre o início dos sintomas e o início do tratamento adequado — associa-se de forma consistente a pior prognóstico, o que fundamenta os programas de intervenção precoce.
Os fatores de risco identificados incluem componente genética substancial, complicações obstétricas, infeções pré-natais, migração e pertença a minoria, urbanicidade, adversidade e trauma na infância, e consumo de canábis, sobretudo de elevada potência e iniciado na adolescência — associação hoje considerada causal em parte dos casos, com relação dose-resposta documentada.
Ver também as perguntas 105 (tratamento) e 106 (intervenção precoce).
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