Fundamentos · Pergunta 5
As perturbações mentais estão realmente a aumentar?
A pergunta parece simples e não é. Confunde duas realidades distintas: a prevalência verdadeira das perturbações mentais na população e o número de casos reconhecidos, diagnosticados e tratados. Estas duas quantidades podem mover-se em direções diferentes, e o segundo número pode subir de forma acentuada sem que o primeiro se altere. Confundi-las produz duas narrativas igualmente erradas — a de uma epidemia sem precedentes e a de uma medicalização generalizada do sofrimento comum.
Quatro mecanismos explicam, de forma documentada, um aumento aparente sem alteração da prevalência real. O primeiro é a melhoria da capacidade de deteção: onde existem mais profissionais, mais formação e melhores instrumentos de rastreio, identificam-se mais casos que antes permaneciam invisíveis. O segundo é a redução do estigma e das barreiras de acesso, que leva mais pessoas a procurar ajuda e, por consequência, a receber diagnóstico. O terceiro é o alargamento dos critérios de diagnóstico: quando uma categoria passa a abranger apresentações mais ligeiras ou mais variadas, mais pessoas cumprem os critérios. O quarto é a substituição diagnóstica — casos que antes recebiam outra designação passam a ser classificados de outro modo, sem que exista qualquer caso novo (Glatt & Glatt, 2025).
O autismo é o exemplo mais estudado desta combinação. O aumento das taxas registadas nas últimas décadas resulta, em proporção substancial, do reconhecimento clínico acrescido, do alargamento do conceito de perturbação do espetro do autismo e da reclassificação de casos anteriormente designados de outra forma. A conclusão não é que o autismo não existe ou que é sobrediagnosticado: é que a curva ascendente dos registos não pode ser lida como curva ascendente da ocorrência.
Há, porém, aumentos que parecem reais e que merecem atenção. A pandemia de COVID-19 associou-se a um aumento documentado da prevalência de perturbação depressiva e de perturbações de ansiedade em 2020, com maior impacto nas mulheres e nas pessoas mais jovens, seguido de recuperação parcial. Em Portugal, os indicadores de sofrimento psicológico na adolescência e nas pessoas jovens adultas, o consumo de psicofármacos e a procura de consulta em saúde mental têm registado subidas sustentadas. A interpretação destes dados exige a distinção entre indicadores de doença, indicadores de sofrimento e indicadores de utilização de serviços, que não são a mesma coisa.
Quanto ao debate entre sobrediagnóstico e subdiagnóstico, a evidência não é simétrica. Para a maioria das perturbações e na maioria dos contextos, o problema dominante continua a ser o subdiagnóstico e o subtratamento: a proporção de pessoas com perturbação mental que não recebe qualquer cuidado permanece elevada em todos os países estudados, Portugal entre eles. Simultaneamente, e sem contradição, existe risco real de medicalização do mal-estar comum em segmentos específicos — reações proporcionadas a acontecimentos adversos que recebem rótulo clínico, dificuldades escolares atribuídas a perturbação sem avaliação adequada, ou prescrição de psicofármacos sem alternativa oferecida. As duas coisas coexistem em populações diferentes.
A consequência prática desta análise é dupla. Para quem procura informação, sugere prudência perante títulos que anunciam epidemias e igual prudência perante os que denunciam invenções: ambos costumam apoiar-se em séries de registos administrativos, e não em estudos de prevalência com metodologia comparável ao longo do tempo. Para quem decide políticas, sugere que o crescimento da procura de cuidados não deve ser lido como falha do sistema nem como prova de sobrediagnóstico, mas como resultado previsível — e desejável — da redução do estigma e do aumento da literacia.
Ver também as perguntas 4 (prevalência) e 14 (avaliar informação).
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