Fundamentos · Pergunta 7

As perturbações mentais são hereditárias?

As perturbações mentais têm componente genética substancial, mas a palavra hereditariedade é sistematicamente mal interpretada. A hereditabilidade é uma medida populacional: exprime a proporção da variação observada numa população que se atribui a diferenças genéticas entre as pessoas dessa população. Não exprime a proporção da doença de uma pessoa concreta que se deve aos genes, nem a probabilidade de alguém adoecer, nem o grau de inevitabilidade do quadro. Um valor de 80% não significa que quatro quintos da doença de uma pessoa sejam genéticos.

Os estudos com gémeos e com irmãos permitem estimar estes valores. Uma análise dos registos nacionais suecos, com 4 408 646 irmãos completos e meios-irmãos, obteve estimativas que variaram entre 0,30 para a perturbação depressiva e 0,80 para a perturbação de hiperatividade e défice de atenção (Pettersson et al., 2019). O registo nacional de gémeos dinamarquês estimou a hereditabilidade da esquizofrenia em 79% (Hilker et al., 2018), e a meta-análise dos estudos de gémeos no autismo situou-a entre 64% e 91% (Tick et al., 2016). Nenhuma perturbação mental apresenta hereditabilidade de 100%, e nenhuma apresenta hereditabilidade nula: todas resultam da interação entre genes e ambiente.

Três leituras erradas devem ser evitadas. A primeira confunde hereditabilidade com destino. No mesmo estudo dinamarquês, a concordância entre gémeos monozigóticos — geneticamente idênticos — foi de 33% para a esquizofrenia: em dois terços dos pares em que um gémeo adoeceu, o outro não adoeceu, apesar de partilhar a totalidade do genoma. A segunda leitura errada supõe que a hereditabilidade é uma propriedade fixa da doença. Não é: depende da população e do contexto, e tende a aumentar quando as condições ambientais são mais homogéneas e favoráveis, porque a variação restante passa a dever-se sobretudo a diferenças genéticas. A terceira supõe que existe um gene da depressão ou da esquizofrenia. Não existe. A arquitetura genética destas condições é poligénica: envolve centenas ou milhares de variantes, cada uma com efeito individual muito pequeno.

Daqui decorre uma consequência clínica importante. Não existe, à data, qualquer teste genético que permita diagnosticar uma perturbação mental, prever com utilidade se uma pessoa concreta virá a adoecer ou orientar a escolha do tratamento na prática corrente. Os índices poligénicos de risco são instrumentos de investigação com valor estatístico ao nível de grupos e sem valor preditivo individual. Os testes comercializados diretamente ao consumidor que prometem avaliar risco psiquiátrico ou compatibilidade com psicofármacos carecem de validação suficiente para orientar decisões, e a sua interpretação isolada pode causar dano.

Para quem tem história familiar, o que é útil saber organiza-se em três pontos. O risco relativo aumenta, mas o risco absoluto permanece, na maioria dos casos, inferior ao que a intuição sugere: ter um familiar de primeiro grau com esquizofrenia eleva o risco ao longo da vida para valores da ordem dos 10%, o que significa que cerca de nove em cada dez pessoas nessa situação não desenvolvem a doença. O que se herda não é a doença mas uma vulnerabilidade, que interage com acontecimentos de vida, consumos, sono, adversidade precoce e apoio social — todos eles modificáveis em alguma medida. E o conhecimento da história familiar tem valor prático real: permite deteção precoce, vigilância dos sinais próprios daquela família e decisão informada sobre consumos de risco, por exemplo de canábis na adolescência.

Uma nota final sobre o que a informação genética não deve produzir. O fatalismo — «está nos genes, não há nada a fazer» — não decorre da evidência e associa-se a pior evolução. A decisão de não ter filhos com base num valor de hereditabilidade não é sustentada por esse valor, que nada diz sobre um caso individual. E a atribuição de culpa às figuras parentais, historicamente frequente nesta área, carece de fundamento em ambas as direções: nem transmitiram deliberadamente uma vulnerabilidade, nem a causaram pela sua conduta. Existe aconselhamento genético para famílias que pretendam discutir estas questões com rigor.

Ver também as perguntas 6 (causas) e 34 (fatores de risco).

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