Situações e comportamentos · Pergunta 152

Ausência de empatia: o que está mesmo em causa?

Desfazer o rótulo, sem negar o que ele descreve

Empatia é a capacidade de compreender a experiência ou os sentimentos de outra pessoa e de lhes responder; não exige concordar. Dizer «não tem empatia nenhuma» transforma uma observação sobre o comportamento numa conclusão sobre o carácter. Comportamentos externamente idênticos podem resultar de mecanismos muito diferentes. Ao mesmo tempo, quem convive com ausência de resposta emocional pode sentir solidão e abandono legítimos, mesmo quando compreende a causa.

O que se passa e porquê

A investigação distingue empatia cognitiva — compreender o que o outro sente — de empatia afetiva — sentir com o outro. As duas dissociam-se, e a dissociação explica quadros muito diferentes.

Na depressão grave pode existir embotamento afetivo, ou seja, redução da intensidade das emoções: a pessoa compreende, mas sente pouco, até em relação a si própria. Alguns medicamentos, incluindo certos antidepressivos, também podem causar embotamento emocional, que deve ser comunicado para eventual ajuste. Nos sintomas negativos da esquizofrenia pode existir redução da expressão sem igual redução do sentir — a pessoa sente e não mostra. No autismo, diferenças na leitura de sinais sociais ou na forma de expressar cuidado não permitem concluir que falta empatia; existe grande variação entre pessoas. Nas demências frontotemporais pode ocorrer perda progressiva de empatia. Na perturbação da personalidade antissocial e nos traços psicopáticos, compreender o que o outro sente pode coexistir com menor resposta emocional. E existe ainda a exaustão empática de quem cuida, que pode melhorar e é frequentemente confundida com frieza.

O que a própria pessoa pode fazer

Se o embotamento é novo, dizê-lo à equipa que acompanha: pode ser sintoma tratável ou efeito adverso corrigível, e é um dos motivos mais frequentes e menos declarados de interrupção da medicação. Se a dificuldade é de leitura e não de sentir, tornar explícito o que não é dito ajuda de ambos os lados: pedir que digam diretamente o que precisam, e dizer diretamente o que se sente em vez de esperar que se note. E a demonstração por atos — fazer algo concreto por alguém — comunica cuidado quando a expressão emocional não sai.

O que fazer quem acompanha

Verificar qual dos mecanismos está em causa antes de concluir, porque a resposta difere radicalmente. Não interpretar a ausência de expressão como ausência de sentimento, sobretudo nos sintomas negativos e no autismo. Pedir de forma explícita e concreta em vez de esperar iniciativa: «preciso que me perguntes como correu o dia» obtém resultado que a espera não obtém.

Aceitar demonstrações de cuidado noutra linguagem que não a emocional. Procurar apoio próprio para a necessidade que não é satisfeita naquela relação, o que não é infidelidade nem desistência — é realismo. E, quando existe perda genuína e progressiva de empatia, fazer o luto dessa dimensão da relação, com ajuda se necessário: é uma perda real e é frequentemente vivida sem reconhecimento por ninguém.

O que nunca fazer

Não chamar frio, egoísta ou insensível. Não exigir demonstrações emocionais como prova de amor. Não usar a comparação com o passado como censura. Não presumir intenção de magoar. Não atribuir falta de empatia a pessoas autistas. E não confundir ausência de expressão com ausência de sentimento.

Quando é urgência

Perda de empatia de instalação recente e progressiva numa pessoa adulta, sobretudo com alteração da conduta social e do juízo, obriga a avaliação neurológica. Embotamento afetivo total com incapacidade de sentir por si próprio, em contexto depressivo, associa-se a risco suicidário e exige avaliação.

Ver também as perguntas 112 (o que é o autismo) e 104 (psicose e esquizofrenia).

Informação geral: não substitui avaliação e cuidados individualizados. Consulte a política editorial e as fontes.