Perturbações · Pergunta 112
O que é o autismo?
As perturbações do espetro do autismo caracterizam-se por dois domínios nucleares. O primeiro são as diferenças persistentes na comunicação e na interação social: na reciprocidade socioemocional, na comunicação não verbal — contacto visual, expressão facial, gesto, prosódia — e no estabelecimento e na compreensão das relações. O segundo são os padrões restritos e repetitivos de comportamento, de interesses ou de atividades: movimentos ou discurso repetitivos, insistência na invariância e mal-estar acentuado perante a mudança, interesses intensos e circunscritos, e hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais.
A designação de espetro não é retórica. A variação entre pessoas autistas é enorme, quer no perfil de características quer na necessidade de apoio: algumas requerem apoio permanente e não desenvolvem linguagem funcional, outras vivem de forma autónoma e só recebem diagnóstico na idade adulta. As classificações atuais especificam o nível de necessidade de apoio e a presença ou ausência de dificuldade intelectual e de dificuldades de linguagem associadas, precisamente porque a categoria isolada informa pouco.
Quanto à frequência, a revisão sistemática de Zeidan et al. (2022), que atualizou as estimativas globais, situou a prevalência mediana em torno de 1% da população, com variação considerável entre estudos e regiões, atribuível sobretudo a diferenças de método, de critérios e de acesso a avaliação. O aumento observado nas últimas décadas reflete, em grande medida, o alargamento dos critérios, a maior sensibilização e a melhoria da deteção, e não um aumento equivalente da incidência real.
A distribuição por sexo merece nota. A metanálise de Loomes et al. (2017) estimou o rácio verdadeiro em cerca de três homens por cada mulher, valor inferior ao rácio observado nos estudos baseados em casos clínicos — o que é evidência direta de subdiagnóstico feminino. As explicações propostas incluem a menor visibilidade das manifestações, os interesses circunscritos socialmente aceitáveis e, sobretudo, a camuflagem: o esforço deliberado e continuado de imitar comportamentos sociais, suprimir movimentos repetitivos e ensaiar interações, que permite passar despercebida ao custo de exaustão, de perda de sentido de identidade e de maior risco de depressão e de comportamento suicidário.
A dimensão sensorial é frequentemente a menos compreendida por quem observa de fora e a mais determinante da qualidade de vida. Luz, ruído, texturas, odores, temperatura, etiquetas de roupa e ambientes com múltiplos estímulos simultâneos podem produzir desconforto intenso ou dor. O que do exterior parece birra, evitação ou rigidez pode ser resposta a sobrecarga sensorial real — e a designada crise autista, com perda de controlo ou com bloqueio e retraimento, é reação a essa sobrecarga e não comportamento intencional.
As condições associadas são a regra. A metanálise de Lai et al. (2019), publicada na Lancet Psychiatry, estimou que cerca de 28% das pessoas autistas apresentam perturbação de hiperatividade e défice de atenção, 20% perturbações de ansiedade, 13% perturbações do sono, 12% perturbações depressivas, 11% perturbação obsessivo-compulsiva e 5% perturbações do espetro da esquizofrenia — prevalências muito superiores às da população geral. Acrescem condições físicas frequentes, por exemplo epilepsia, dificuldades gastrointestinais e alterações do sono.
Existe um dado que exige comunicação clara. O estudo de coorte de Hirvikoski et al. (2016), com registos nacionais suecos, documentou mortalidade prematura substancialmente aumentada nas pessoas autistas, com razão de possibilidades de 2,56 face à população geral, e identificou o suicídio como causa de morte com excesso particularmente marcado nas mulheres autistas sem dificuldade intelectual. Este resultado contraria a perceção comum de que o autismo sem défice cognitivo associado tem baixo impacto, e sustenta a necessidade de avaliação sistemática do risco nesta população.
Importa, por fim, encerrar de forma inequívoca uma questão que continua a produzir dano. As vacinas não causam autismo. A metanálise de Taylor et al. (2014), que reuniu dez estudos com mais de 1,26 milhões de crianças, não encontrou qualquer associação entre a vacinação e o autismo, nem com a vacina contra o sarampo, a papeira e a rubéola, nem com o timerosal, nem com o mercúrio. O estudo que originou a controvérsia foi retirado por fraude e o seu autor perdeu a licença médica. A persistência desta crença tem custos mensuráveis em cobertura vacinal e em surtos evitáveis.
Ver também as perguntas 113 (como apoiar uma pessoa autista) e 109 (perturbações do neurodesenvolvimento).
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