Situações e comportamentos · Pergunta 154
Como agir quando uma pessoa não reconhece que está doente?
Por outras palavras
Algumas pessoas não conseguem reconhecer que estão doentes. Discutir como se fosse apenas teimosia pode não ajudar.
Partilhe observações concretas e procure objetivos em comum. Perante perigo grave, é necessário acionar ajuda urgente.
Esta versão explica a ideia principal. A resposta completa mantém os detalhes, os limites e as orientações de cada situação.
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O que se passa e porquê
A ausência de crítica é frequentemente descrita como negação, e não é. A negação é um mecanismo psicológico de defesa perante uma verdade que se conhece. O que ocorre em várias condições é diferente: a anosognosia é a incapacidade neurologicamente determinada de reconhecer a própria doença, descrita originalmente em pessoas que, após acidente vascular cerebral, não reconheciam a paralisia do próprio membro. O mesmo mecanismo opera em cerca de metade das pessoas com esquizofrenia e numa proporção substancial das pessoas em episódio maníaco e com demência. Não é teimosia, não é orgulho e não cede a argumentos, porque o instrumento que avaliaria a doença é o mesmo que está afetado.
A crítica não é, além disso, tudo ou nada. Divide-se em três componentes que podem estar dissociadas: reconhecer que existe doença, atribuir os sintomas à doença, e reconhecer a necessidade de tratamento. É comum encontrar pessoas que aceitam ter um problema mas não que as vozes sejam sintoma, ou que aceitam o tratamento sem aceitar o diagnóstico. Esta última combinação é, do ponto de vista prático, suficiente — e persegui-la em vez de perseguir a aceitação plena do diagnóstico é a estratégia mais realista.
A associação com a adesão está bem documentada: na análise dos dados de um grande ensaio comparativo sobre antipsicóticos, a alteração da crítica associou-se a não adesão mais precoce e mais frequente, de forma independente da gravidade da doença, dos consumos, das atitudes face à medicação, da cognição, da hostilidade e da depressão (Kim et al., 2020). Existe, porém, um paradoxo que importa conhecer: melhor crítica associa-se também a mais presença de sintomas de depressão, a pior bem-estar subjetivo e a maior risco suicidário em alguns estudos. Reconhecer que se tem uma doença grave é, em si, uma perda a elaborar, e a intervenção sobre a crítica deve acompanhar essa elaboração e não apenas produzi-la.
O que a própria pessoa pode fazer
Para quem tem alguma crítica, ainda que parcial, o mais útil é registá-la enquanto existe. Escrever, em período de estabilidade, o que reconhece agora e o que quer que se faça se deixar de reconhecer — matéria das diretivas antecipadas de vontade — dá voz à própria pessoa no momento em que ela não a poderá exercer. É o instrumento mais poderoso disponível nesta área e continua a ser pouco usado.
O que fazer quem acompanha
A abordagem com melhor sustentação parte de um princípio contraintuitivo: não é necessário concordar sobre o diagnóstico para colaborar no tratamento. Em vez de insistir na aceitação da doença, procura-se acordo sobre objetivos que a pessoa reconhece como seus — dormir melhor, ficar mais calmo, evitar ir parar ao hospital, manter o emprego, que a família deixe de insistir. Esses objetivos são compatíveis com o tratamento e não exigem que a pessoa aceite o rótulo.
Na prática, isto traduz-se em quatro movimentos. Escutar e refletir a perspetiva da pessoa sem a corrigir, até ela sentir que foi compreendida — este passo não é preliminar, é o que torna os seguintes possíveis. Empatizar com as razões da recusa, entre as quais os possíveis efeitos secundários e a experiência de coerção. Acordar naquilo em que existe acordo, que é sempre mais do que parece. E estabelecer parceria em torno dos objetivos comuns. Pedir autorização antes de dar a própria opinião — «posso dizer-te como eu vejo isto?» — obtém audiência que a afirmação direta não obtém.
Simultaneamente: manter a relação acima de tudo, porque é o único canal que resta; documentar objetivamente as consequências, sem discutir a causa; envolver a equipa clínica cedo; e conhecer os critérios legais de tratamento involuntário antes de precisar deles, porque a decisão informada em situação de crise é impossível.
O que nunca fazer
Não repetir o argumento na esperança de que desta vez convença. Não confrontar com provas da doença, que reforça a posição. Não fazer da aceitação do diagnóstico condição para qualquer coisa. Não ameaçar com internamento como instrumento de pressão, que destrói a relação e torna qualquer internamento futuro muito mais traumático. Não conspirar com a equipa pelas costas da pessoa. E não desistir do contacto porque não há acordo — a relação mantida é o que permite intervir quando for necessário.
Quando é urgência
Quando a ausência de crítica coexiste com risco para a própria pessoa ou para terceiros, com deterioração grave do estado físico, com recusa de cuidados em situação clinicamente grave, ou com incapacidade de assegurar as necessidades básicas. É nestas circunstâncias, e apenas nestas, que se colocam os critérios de tratamento involuntário previstos na Lei n.º 35/2023 — que exigem verificação dos pressupostos legais e decisão judicial, e que não se aplicam pela simples circunstância de a pessoa não reconhecer a doença.
Ver também as perguntas 76 (tratamento involuntário) e 62 (diretivas antecipadas).
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