Apoiar alguém · Pergunta 89
Como falar com crianças sobre a doença mental de um familiar?
As crianças percebem que algo se passa, mesmo quando nada lhes é dito. Detetam a tensão, a alteração das rotinas, as conversas interrompidas quando entram na sala e a mudança no comportamento da pessoa adulta. Na ausência de explicação, preenchem o silêncio com hipóteses próprias, e essas hipóteses são tipicamente autorreferenciais: a criança conclui que a causa é ela, que fez algo errado ou que não é suficientemente boa. O silêncio protetor produz, por isso, o efeito inverso ao pretendido.
A explicação deve ser adaptada à idade, simples, verdadeira e repetida ao longo do tempo. Não é uma conversa única, mas um assunto que se mantém aberto. Deve utilizar o nome da condição, dado que nomear reduz o mistério e desarma a fantasia, e evitar metáforas que confundam — dizer que a mãe está «cansada» durante meses cria incoerência com o que a criança observa.
Três mensagens são essenciais e devem ser explicitadas, e não presumidas. Primeira: a culpa não é tua, e nada do que fizeste causou isto. Segunda: não se apanha como uma constipação, e tu não vais ficar assim por causa disto. Terceira: há pessoas adultas a tratar disto e há sempre alguém para cuidar de ti. Estas três mensagens respondem às três preocupações que a investigação identifica como mais frequentes nas crianças nestas circunstâncias: culpa, contágio e abandono.
Por idades, a orientação varia. Com crianças pequenas, até aos seis ou sete anos, importa a concretude e a associação a comportamentos observáveis: «a mãe tem uma doença que a deixa muito triste e sem energia, e por isso às vezes fica na cama; ela ama-te na mesma e está a ser tratada». Em idade escolar, é possível explicar o nome da condição, o que ela faz e como se trata, e responder a perguntas com honestidade. Na adolescência, importa uma explicação mais completa, o reconhecimento explícito do impacto na vida da pessoa jovem e a informação sobre risco familiar, quando perguntada, apresentada com exatidão — risco aumentado não significa inevitabilidade.
Convém manter as rotinas na medida do possível, dado que constituem a principal fonte de segurança; autorizar as perguntas e as emoções, por exemplo a raiva, a vergonha e o desejo de não estar em casa, que são comuns e frequentemente reprimidas; e evitar atribuir à criança responsabilidades de cuidado desproporcionadas à idade. Este último ponto merece ênfase: as crianças que assumem funções de cuidado — vigilância, gestão da medicação, cuidado de irmãos, apoio emocional à figura parental — apresentam risco acrescido de problemas de saúde mental próprios, de insucesso escolar e de dificuldades relacionais na vida adulta. Esta situação, designada por parentificação, deve ser ativamente prevenida e, quando existe, sinalizada.
É igualmente importante assegurar à criança pelo menos uma pessoa adulta de referência estável fora do agregado — alguém da família alargada, da docência ou do treino desportivo — a quem possa recorrer. A investigação sobre resiliência identifica este fator como o preditor mais robusto de boa evolução.
Deve informar-se a escola, com o conteúdo que a família considerar adequado. A escola pode ajustar expectativas, sinalizar alterações e assegurar apoio, e não pode fazê-lo se desconhecer a situação. Quando surgirem alterações do comportamento, do sono, do rendimento escolar ou do relacionamento com pares, justifica-se avaliação por profissional.
Existem materiais e programas dirigidos a filhos de pessoas com doença mental, por exemplo grupos que reúnem crianças em situação semelhante, cuja participação reduz o isolamento e a sensação de singularidade. As associações de familiares dispõem frequentemente de informação sobre estes recursos.
Ver também as perguntas 32 (promover a saúde mental das crianças) e 90 (apoios sociais).
Informação geral: não substitui avaliação e cuidados individualizados. Consulte a política editorial e as fontes.