Cuidar no dia a dia · Pergunta 32
Como promover a saúde mental na infância e na adolescência em casa?
Os primeiros anos de vida constituem um período de elevada plasticidade neurobiológica, durante o qual a qualidade das relações de vinculação molda os circuitos de regulação do stresse e a capacidade posterior de regulação emocional. Os elementos com maior sustentação empírica são a previsibilidade das respostas da pessoa adulta, a sua disponibilidade emocional e a sensibilidade com que interpreta e responde ao mal-estar da criança. Não se exige perfeição: a investigação sobre vinculação documenta que a reparação da rutura relacional — o reconhecimento do erro e o restabelecimento da ligação — é tão formativa quanto a ausência de rutura.
A idade de início da maioria das perturbações mentais é precoce. A metanálise de Solmi et al. (2022), que reuniu dados de 192 estudos e mais de 700 000 participantes, estimou que 48,4% das perturbações mentais têm início antes dos 18 anos e 62,5% antes dos 25 anos, com idade mediana de início aos 18 anos. Este dado justifica a concentração do esforço preventivo na infância e na adolescência e contraria a ideia de que os problemas de saúde mental são fenómeno predominantemente associado à idade adulta.
Na adolescência, três domínios merecem atenção prioritária. O primeiro é o sono: as exigências escolares, o horário de início das aulas e a utilização noturna de dispositivos comprimem o tempo de sono num período em que a necessidade fisiológica é de oito a dez horas e em que o ritmo circadiano se atrasa naturalmente. A privação crónica de sono na adolescência associa-se a presença de sintomas de depressão, a irritabilidade, a pior desempenho e a maior risco de comportamento suicidário.
O segundo é a comunicação. A investigação sobre parentalidade identifica como mais eficaz o estilo que combina exigência elevada com afetuosidade elevada — designado por autoritativo ou democrático —, por oposição ao autoritário, ao permissivo e ao negligente. Na prática, isto significa manter regras claras e consistentes, explicar as suas razões, permitir a negociação progressiva à medida que a autonomia aumenta e nunca condicionar o afeto ao cumprimento.
O terceiro é a validação emocional. A desvalorização do sofrimento — «é da idade», «isso passa», «no meu tempo não havia disto», «tens tudo o que precisas» — é a resposta que mais eficazmente encerra a conversa e que mais contribui para que a pessoa jovem não volte a falar. O reconhecimento explícito da emoção, antes de qualquer conselho ou solução, é o passo que mais facilita a continuidade do diálogo. Vale a pena explicitar: primeiro ouvir, depois perguntar o que a pessoa quer da conversa — desabafar, pensar em conjunto ou obter uma solução — e só depois responder.
Existem sinais que justificam avaliação profissional e que não devem ser atribuídos à idade: alteração persistente do rendimento escolar, afastamento dos amigos, abandono de atividades anteriormente valorizadas, alterações marcadas do sono ou do apetite, irritabilidade persistente, marcas de autolesão, referências à morte, aumento do consumo de substâncias e mudanças bruscas de aparência ou de comportamento. Perante estes sinais, a conversa deve ser direta e a avaliação não deve ser adiada.
O estudo de Loureiro et al. (2013), realizado com 4 938 jovens portugueses entre os 14 e os 24 anos, documentou défices de literacia com implicações práticas para as pessoas adultas: cerca de um quarto não reconheceu a depressão descrita numa vinheta clínica, docentes raramente foram identificados como fonte de ajuda e algumas estratégias de primeira ajuda inadequadas foram frequentemente aprovadas. Um estudo posterior sobre a esquizofrenia, com a mesma amostra, verificou reconhecimento da perturbação em apenas 42% dos casos e reticência em perguntar diretamente sobre ideação suicida.
Estes resultados sugerem uma orientação concreta para as famílias: não presumir que a pessoa jovem sabe reconhecer o que sente, nem que sabe onde pedir ajuda. Falar sobre saúde mental antes de existir problema, nomear as perturbações pelos seus nomes, explicar que existem tratamentos eficazes e indicar contactos concretos é, ele próprio, um ato preventivo.
Ver também as perguntas 36 (sinais precoces) e 89 (falar com crianças sobre a doença de um familiar).
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