Crise · Pergunta 73
Como funciona a referenciação para a urgência de psiquiatria?
A urgência de psiquiatria é um serviço de urgência especializada, destinado ao atendimento de situações que não podem aguardar por consulta programada. Não é uma via alternativa de acesso a consulta, e o recurso indevido — além de sobrecarregar o serviço — expõe a pessoa a espera prolongada num ambiente com estimulação elevada e privacidade reduzida, condições que agravam a maioria dos quadros psiquiátricos.
Os procedimentos de triagem e de referenciação foram normalizados pela Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde (2022), no Regulamento das Urgências de Psiquiatria, e importa conhecê-los, porque determinam o percurso efetivo de quem recorre ao hospital.
A regra geral é a seguinte. Quem tem acompanhamento num serviço local de saúde mental deve, perante uma situação que considere urgente, contactar preferencialmente o psiquiatra assistente, e recorrer à urgência mediante indicação deste — de preferência com carta de referenciação que explique o motivo e o propósito da observação. Os serviços locais de saúde mental devem, para o efeito, dispor de mecanismos que assegurem esse atendimento, por exemplo consulta de crise, e a substituição dos profissionais ausentes.
Quem não tem acompanhamento em serviço de saúde mental deve ser referenciado com informação da equipa de saúde familiar, que explique o motivo do pedido de observação. As transferências entre hospitais só podem ser efetuadas após contacto telefónico com o chefe de equipa de psiquiatria do hospital de destino e com autorização expressa deste.
As pessoas que recorrem espontaneamente à urgência, ou através dos serviços de emergência, sem carta de referenciação, são triadas e orientadas para a área médica, de acordo com o protocolo em uso. São consideradas exceções, triadas diretamente para a psiquiatria após contacto prévio com o chefe de equipa, três situações: os casos enquadráveis na Lei de Saúde Mental, por exemplo os mandados de condução para avaliação clínico-psiquiátrica urgente, que têm precedência no atendimento; a crise suicidária; e a descompensação psicótica evidente, com atividade delirante ou alucinatória auditiva, em pessoa com seguimento psiquiátrico atual por psicose.
Nestas duas últimas situações, a norma determina que se exclua ativamente a intoxicação que acontece ao mesmo tempo por álcool, drogas ou medicamentos, que é sempre avaliada previamente pela área médica. A razão é clínica e não burocrática: a intoxicação pode produzir ou agravar sintomas psiquiátricos, comporta risco físico próprio e altera a avaliação, pelo que a estabilização médica precede a avaliação psiquiátrica.
Depois da avaliação noutras áreas médico-cirúrgicas, constituem motivo de avaliação ou de transferência para a psiquiatria, após discussão clínica com o chefe de equipa: os efeitos laterais graves de psicofármacos; a sintomatologia psicótica agudizada; a ideação suicida; a agitação psicomotora de causa psiquiátrica; a comorbilidade psiquiátrica relevante — por exemplo, presença de sintomas de depressão grave ou psicótica — em pessoas com intoxicação ou dependência de álcool ou de drogas — nas restantes situações, o encaminhamento faz-se para a rede de tratamento dos comportamentos aditivos; e os casos cuja complexidade clínica ou medicamentosa exija opinião específica da psiquiatria.
Deste conjunto decorrem orientações práticas para quem procura ajuda. Primeira: se existe acompanhamento, contactar primeiro a equipa que acompanha — muitos serviços dispõem de consulta de crise, mais rápida e mais adequada do que a urgência. Segunda: se não existe, contactar a equipa de saúde familiar sempre que a situação o permita, dado que a carta de referenciação altera o percurso na triagem. Terceira: levar consigo a carta, a lista de medicação e a informação sobre antecedentes. Quarta: em situação de risco imediato para a vida, nada disto se aplica — liga-se 112 e vai-se à urgência.
Convém, por fim, registar uma consequência do que antecede. Uma pessoa que recorre espontaneamente à urgência com um quadro de ansiedade intensa, sem risco e sem referenciação, será triada pela área médica e poderá esperar muitas horas para uma avaliação que a equipa de saúde familiar ou a equipa comunitária poderiam realizar em melhores condições. Conhecer os circuitos não é um pormenor administrativo: é parte da literacia que permite obter os cuidados certos no lugar certo.
Ver também as perguntas 72 (quando recorrer à urgência ou ao 112) e 39 (organização do acesso).
Informação geral: não substitui avaliação e cuidados individualizados. Consulte a política editorial e as fontes.