Apoiar alguém · Pergunta 84

Como perguntar diretamente sobre ideação suicida?

Deve perguntar-se de forma direta, calma e sem rodeios. A evidência é clara em que a pergunta não induz nem agrava a ideação, e a hesitação de quem pergunta comunica que o tema é insuportável, o que reduz a probabilidade de resposta honesta.

Uma sequência útil parte do geral para o específico e permite à pessoa aproximar-se do tema gradualmente. Começa-se por uma pergunta ampla — «como te tens sentido, ultimamente?» —, passa-se a uma pergunta sobre desesperança — «tens sentido que as coisas não vão melhorar?» ou «tens sentido que não vale a pena continuar?» — e, se a resposta for afirmativa ou ambígua, formula-se a pergunta direta: «tens pensado em pôr fim à vida?».

A formulação importa. «Tens pensado em pôr fim à vida?» ou «tens pensado em matar-te?» são preferíveis a alternativas vagas — «não estás a pensar em fazer nenhuma tolice, pois não?» — que sinalizam a resposta desejada, comunicam juízo moral e tornam quase impossível a resposta afirmativa. A pergunta em negativa é a formulação com pior desempenho e é, paradoxalmente, a mais utilizada.

Perante resposta afirmativa, importa explorar quatro elementos que informam a gravidade e a urgência. A frequência e a intensidade dos pensamentos. A existência de um plano, e o seu grau de concretização. O acesso aos meios considerados. E a definição de um momento. Quanto mais concretos forem, maior a urgência. Interessa igualmente perguntar o que tem impedido a pessoa de agir, dado que esses fatores — pessoas, responsabilidades, crenças, receio — constituem âncoras a reconhecer e a reforçar.

A reação de quem pergunta condiciona tudo o que se segue. O choque visível, o pânico, a repreensão moral, o discurso religioso condenatório ou a mudança abrupta de assunto encerram a conversa e confirmam à pessoa que fez mal em falar. A resposta adequada é breve, calma e sem drama: «ainda bem que me disseste»; «isso deve ser muito pesado de carregar sem apoio»; «vamos ver o que se pode fazer com isto».

Segue-se a decisão sobre o passo seguinte, que não deve ser adiada nem deixada exclusivamente ao critério da pessoa. Se existe plano, meios e intenção, a avaliação é urgente: serviço de urgência ou 112. Se a ideação existe sem plano concreto, a via é o contacto com a equipa clínica, com a equipa de saúde familiar, com a linha 1411 ou com a Linha SNS 24, e a elaboração conjunta de medidas imediatas de segurança, a começar pelo afastamento dos meios.

Três erros frequentes merecem prevenção. O primeiro é aceitar a promessa de que a pessoa não fará nada e considerar o assunto resolvido: os contratos de não suicídio não têm evidência de eficácia e podem inibir a comunicação futura. O segundo é assumir sem apoio a responsabilidade pela vigilância continuada, o que é insustentável e conduz a exaustão. O terceiro é o silêncio posterior: depois de uma conversa destas, voltar a abordar o tema nos dias seguintes comunica que não foi um assunto isolado e que a disponibilidade se mantém.

Por fim, para quem faz a pergunta: é comum sentir medo, inadequação e o receio de estar a fazer mal. Nada disso invalida a competência para ajudar. Falar com alguém sobre o que se ouviu, procurar orientação numa linha de apoio ou junto da equipa de saúde é legítimo e recomendável, e não é traição da confiança.

Ver também as perguntas 67 (pensamentos de suicídio) e 69 (falar sobre o suicídio).

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