Apoiar alguém · Pergunta 80

Como posso ajudar alguém que parece estar em sofrimento?

O primeiro passo é abordar a pessoa. Parece óbvio e é, na prática, o passo mais frequentemente omitido, por receio de invadir, de errar as palavras ou de piorar a situação. A investigação sobre primeiros socorros em saúde mental é clara neste ponto: o silêncio é a resposta com pior resultado, e a abordagem imperfeita é preferível à ausência de abordagem.

A abordagem beneficia de três cuidados. Escolher o momento e o local: em privado, sem pressa e sem interrupções previsíveis. Partir de observações concretas e não de interpretações ou de rótulos: «tenho reparado que tens dormido pouco, que deixaste de sair e que não estás com o teu ar habitual» funciona melhor do que «andas deprimido» ou «o que se passa contigo?». E formular uma pergunta aberta que permita resposta genuína — «como é que tens estado, mesmo?» —, com aceitação de que a primeira resposta possa ser evasiva.

O segundo passo é escutar. Escutar sem interromper, sem minimizar, sem comparar com experiências próprias e sem apressar soluções. A tendência natural de quem gosta de alguém é resolver, e essa tendência é, nesta fase, contraproducente: comunica que o sofrimento é um problema a eliminar e não uma experiência a partilhar. A validação — «faz sentido que te sintas assim», «não admira que estejas exausto» — precede qualquer sugestão e determina, na prática, a probabilidade de a conversa continuar.

É útil perguntar explicitamente o que a pessoa quer da conversa: desabafar, pensar em conjunto ou receber sugestões. Esta pergunta simples evita o erro mais comum e devolve controlo a quem, em sofrimento, sente que perdeu o controlo sobre quase tudo.

O terceiro passo é dar apoio e informação. Isto inclui comunicar que existem tratamentos eficazes, que o que a pessoa sente tem nome e resposta, e que procurar ajuda não é sinal de fraqueza. Inclui igualmente apoio prático e concreto, que é frequentemente mais valioso do que o apoio emocional: acompanhar a uma consulta, ajudar a encontrar um contacto, tratar de uma tarefa que se tornou pesada, ficar com as crianças, cozinhar. Em depressão, a inércia é sintoma e não escolha, e a ajuda que remove barreiras práticas é a que produz efeito.

O quarto passo é incentivar a ajuda adequada, sem impor e sem ultimatos. Propor passos intermédios de baixo compromisso — falar com a equipa de saúde familiar, ligar para uma linha de apoio, ler informação fiável — tem maior probabilidade de aceitação do que propor diretamente a consulta de psiquiatria. Oferecer-se para acompanhar aumenta substancialmente a probabilidade de a marcação se concretizar.

Esta sequência corresponde, na sua estrutura, à do programa Mental Health First Aid, o mais estudado internacionalmente. A metanálise de Morgan, Ross, e Reavley (2018), que reuniu 18 ensaios e 5 936 participantes, documentou melhorias no conhecimento sobre primeiros socorros em saúde mental (d entre 0,31 e 0,72), no reconhecimento das perturbações (0,22 a 0,52), nas crenças sobre tratamentos eficazes (0,19 a 0,45), na confiança para ajudar (0,21 a 0,58), nas intenções de ajudar (0,26 a 0,75) e, com magnitude menor, na redução do estigma (0,08 a 0,14). Verificou-se ainda um aumento pequeno da ajuda efetivamente prestada no seguimento (d = 0,23), embora a alteração da qualidade dessa ajuda permaneça pouco documentada.

Uma última orientação: manter o contacto ao longo do tempo. A maioria das pessoas recebe atenção nos primeiros dias de uma crise e silêncio nas semanas seguintes, precisamente quando a recuperação é mais lenta e o risco de isolamento maior. Uma mensagem regular, sem exigir resposta, tem valor desproporcionado ao esforço.

Ver também as perguntas 81 (que palavras usar) e 91 (onde me formar).

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