Tratamento e recuperação · Pergunta 53
Como posso reconhecer as minhas forças e recursos apesar de um problema de saúde mental?
O processo clínico documenta exaustivamente o que falha. Regista sintomas, défices, riscos, incumprimentos e recaídas. Muito raramente regista o que a pessoa faz bem, o que a sustentou nas piores fases, o que aprendeu sobre si e o que continua a conseguir apesar de tudo. Esta assimetria não é neutra: uma pessoa que só se lê descrita em termos de falhas acaba por se descrever assim a si própria. Fazer o inventário das forças não é otimismo terapêutico — é corrigir um enviesamento do registo.
Há forças documentadas com regularidade em quem vive com uma perturbação mental. A primeira é o conhecimento de si: poucas pessoas sabem tão bem quais são os seus sinais precoces, o que as desregula e o que as estabiliza. Este saber é clinicamente valioso e frequentemente subaproveitado. A segunda é a resiliência adquirida, na aceção estrita de ter atravessado situações difíceis e ter desenvolvido estratégias para as atravessar. A terceira é a empatia, e com ela a capacidade de reconhecer sofrimento nos outros e de o acompanhar sem julgamento — razão pela qual o apoio por pares tem eficácia própria. A quarta é a competência de procurar e de usar ajuda, que é aprendida e que muitas pessoas sem experiência de doença não possuem.
Convém, ainda assim, resistir a duas idealizações. A primeira é a do génio atormentado, que associa doença mental e criatividade de forma causal e romântica. A associação existe em alguns estudos, é modesta, e não justifica a conclusão perigosa de que tratar a doença retira criatividade — conclusão que já levou pessoas a recusar tratamento. A segunda é a do crescimento pós-traumático como resultado esperado. O crescimento após adversidade está descrito e é real para uma parte das pessoas, mas não é universal, não é obrigatório e não deve ser prescrito. Dizer a alguém que a doença veio para lhe ensinar alguma coisa é, na maioria das situações, uma forma de desconforto próprio disfarçado de consolo.
No caso das condições do neurodesenvolvimento, a formulação é diferente e mais forte. Aqui as forças não são compensação de um défice: são parte constitutiva de um funcionamento diferente. A atenção sustentada em áreas de interesse, o reconhecimento de padrões, a atenção ao detalhe, a integridade na comunicação e a resistência à pressão do grupo são características associadas ao autismo; a capacidade de mobilização intensa, a rapidez de associação e a tolerância ao risco associam-se à perturbação de hiperatividade e défice de atenção. O modelo da neurodiversidade sustenta que a incapacidade resulta, em parte substancial, do desajuste entre a pessoa e o ambiente, e não apenas da condição.
Como fazer o inventário, na prática. Três perguntas produzem material utilizável: o que consegui atravessar até hoje, e como? o que continuo a fazer bem, mesmo nos períodos maus? e o que é que as pessoas que gostam de mim diriam que eu faço bem? A esta última vale a pena responder por escrito e depois perguntar diretamente a duas dessas pessoas, porque a discrepância entre as duas listas costuma ser instrutiva. Registe também os recursos externos — quem, concretamente, está disponível para quê — porque o inventário de forças que ignora a rede fica incompleto.
O uso deste material tem lugar próprio. A investigação sobre recuperação pessoal identificou cinco processos que a sustentam: a conexão com outros, a esperança e o otimismo quanto ao futuro, a reconstrução de uma identidade que não se reduz ao diagnóstico, o sentido atribuído à vida e a capacitação para decidir sobre a própria vida (Leamy et al., 2011). Todos eles se apoiam mais no que existe do que no que falta. Leve o inventário à consulta: transforma a conversa de um relatório de sintomas numa conversa sobre o que construir, e ajuda a formular, em consulta, objetivos que a pessoa reconheça como seus.
Ver também as perguntas 52 (recuperação) e 19 (salutogénese).
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