Tratamento e recuperação · Pergunta 52

O que é a recuperação em saúde mental?

O conceito de recuperação, tal como formulado a partir dos anos noventa pelo movimento de pessoas com experiência vivida, não se confunde com a remissão completa dos sintomas nem com o regresso ao estado anterior à doença. Designa um processo pessoal e único de construção de uma vida com sentido, satisfação e contributo, com ou sem sintomas presentes, no qual a pessoa recupera o controlo sobre as suas escolhas e o seu papel social.

A distinção face à recuperação clínica — definida por critérios de redução ou desaparecimento dos sintomas e de funcionamento — é substancial e por vezes tensa. Uma pessoa pode cumprir critérios de recuperação clínica e considerar que não recuperou, por ter perdido o emprego, as relações e o sentido de si. Inversamente, pode manter sintomas persistentes e considerar-se plenamente recuperada, por ter reconstruído uma vida que valoriza. Ambas as perspetivas são legítimas e informam objetivos terapêuticos diferentes.

O modelo CHIME, resultante de uma revisão sistemática da literatura sobre experiências de recuperação, sintetiza cinco processos que a sustentam: a conexão com outros, por exemplo pares, profissionais e comunidade; a esperança e o otimismo quanto ao futuro, que a investigação identifica como o processo mais frequentemente referido; a identidade positiva, que envolve reconstruir um sentido de si que integre mas não se esgote na experiência de doença; o sentido e o propósito de vida, através de papéis valorizados; e o empoderamento, que inclui a responsabilidade sobre as próprias decisões e o foco nas forças e não apenas nos défices.

Estes processos são apoiáveis por intervenções concretas e não constituem apenas linguagem aspiracional. Os planos de recuperação e de bem-estar elaborados pela própria pessoa, os grupos de ajuda mútua, o apoio por pares formados, o emprego apoiado segundo o modelo de colocação e apoio individual — que apresenta eficácia superior à dos modelos de treino prévio na obtenção de emprego competitivo — e a habitação apoiada segundo o modelo de habitação primeiro constituem intervenções operacionalizáveis.

A adoção desta perspetiva altera o objetivo dos cuidados de forma mensurável. Deixa de bastar a redução da pontuação numa escala de sintomas e passa a exigir a avaliação da participação social, do exercício efetivo de direitos, do desempenho de papéis valorizados e da satisfação da pessoa com a sua vida. Altera igualmente a relação: a relação deixa de assentar exclusivamente na perícia profissional que decide e passa a ser também o recurso ao serviço de um projeto que pertence à pessoa.

Existem, contudo, críticas ao conceito que merecem registo. A primeira é que a linguagem da recuperação foi, em vários sistemas, apropriada para justificar a redução de serviços, sob o argumento de que a pessoa deve assumir responsabilidade — deslocação que transforma um conceito emancipatório em instrumento de contenção de custos. A segunda é que a exigência implícita de recuperar pode constituir novo fardo para quem não melhora, e acrescentar fracasso ao sofrimento. A terceira é que o conceito, desenvolvido em contextos anglo-saxónicos, requer adaptação cultural e não deve ser transposto sem tradução para realidades com estruturas familiares e comunitárias distintas.

A leitura equilibrada mantém o valor do conceito e recusa a sua instrumentalização: a recuperação é possível, é apoiável e é um direito, mas não é uma obrigação nem substitui a prestação de cuidados.

Ver também as perguntas 64 (grupos de ajuda mútua) e 3 (saúde mental e doença mental).

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