Tratamento e recuperação · Pergunta 64

Onde encontro, em Portugal, grupos de ajuda mútua e associações de saúde mental?

Portugal dispõe de uma rede de organizações da sociedade civil na área da saúde mental que inclui associações de familiares, associações de pessoas com experiência vivida, organizações dedicadas a condições específicas e instituições particulares de solidariedade social com serviços de reabilitação psicossocial. Estas organizações asseguram grupos de ajuda mútua, informação, apoio jurídico, formação, atividades ocupacionais e representação junto das instituições.

A ajuda mútua assenta num princípio distinto do da relação profissional e é essa distinção que é o seu valor. O contributo não resulta de perícia técnica mas de experiência partilhada e de reciprocidade: quem ajuda também recebe, e quem recebe também ajuda. Os mecanismos identificados incluem a normalização da experiência, a redução do isolamento, a transmissão de conhecimento prático que não consta dos manuais, a criação de modelos de possibilidade — ver alguém que atravessou o mesmo e recuperou — e a inversão do papel de recetor passivo de cuidados.

A evidência disponível aponta para benefícios sobre a esperança, o empoderamento, a autoeficácia e a redução do autoestigma, com efeitos mais modestos e menos consistentes sobre a sintomatologia e sobre o internamento. A qualidade metodológica dos estudos é heterogénea, em parte por dificuldades intrínsecas — a aleatorização e o cegamento são pouco possíveis de realizar nestes contextos. A conclusão razoável é que a ajuda mútua é complemento valioso e não substituto do tratamento.

O apoio por pares formalizado — pessoas com experiência vivida que recebem formação específica e integram equipas de saúde mental com função reconhecida e remunerada — é desenvolvimento distinto da ajuda mútua informal, com implantação crescente em vários sistemas de saúde e evidência favorável sobre o envolvimento nos cuidados e sobre resultados de recuperação.

Para localizar respostas, as vias mais eficazes são: o serviço social da unidade hospitalar ou do centro de saúde, que dispõe habitualmente de informação atualizada sobre a área de residência; a equipa de saúde mental que acompanha a pessoa; a autarquia, através do pelouro da ação social; e as próprias associações, que mantêm sítios e linhas de contacto. A Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados de Saúde Mental integra unidades socio-ocupacionais com vocação semelhante, cujo acesso se faz por referenciação.

Existem ainda grupos organizados em torno de condições específicas — perturbação bipolar, perturbações do comportamento alimentar, perturbação obsessivo-compulsiva, dependências, luto por suicídio — e grupos dirigidos a familiares e a pessoas cuidadoras, cuja necessidade é distinta da das pessoas com a condição e cuja resposta específica é frequentemente mais útil do que a participação em grupos mistos.

Duas cautelas merecem registo. A primeira: nem todos os grupos são iguais, e alguns podem reforçar uma identidade centrada na doença, promover conselhos clínicos sem fundamento ou desencorajar o tratamento. Um grupo que desaconselhe medicação, que promova um único modelo explicativo ou que exija adesão a crenças específicas deve suscitar reserva. A segunda: os grupos em linha oferecem acessibilidade e anonimato valiosos, sobretudo em zonas com poucas respostas presenciais, mas expõem a informação não verificada e, em alguns casos, a conteúdos prejudiciais. A moderação por profissionais ou por pares formados é um bom indicador de qualidade.

Ver também as perguntas 52 (recuperação) e 91 (onde me formar para ajudar).

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