Perturbações · Pergunta 92
Como se classificam as perturbações mentais?
Existem dois sistemas de classificação em uso. A Classificação Internacional de Doenças, na sua décima primeira revisão, publicada pela Organização Mundial da Saúde, é o sistema oficial em Portugal e na generalidade dos países, e é utilizado para registo, para estatística e para efeitos administrativos. O Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais, publicado pela Associação Psiquiátrica Americana, é mais utilizado em investigação e em contexto académico. Os dois sistemas foram progressivamente harmonizados, mas mantêm diferenças relevantes em várias categorias.
A classificação é categorial: define perturbações por conjuntos de critérios que devem estar presentes durante um período mínimo e produzir sofrimento ou compromisso da funcionalidade. Esta abordagem tem vantagens práticas — permite comunicação entre profissionais, orienta o tratamento, viabiliza investigação e dá acesso a direitos — e limitações conceptuais bem documentadas.
As limitações merecem ser conhecidas por quem recebe um diagnóstico. Primeira: as fronteiras entre categorias são permeáveis e a comorbilidade é a regra, o que sugere que as categorias não correspondem a entidades naturais distintas. Segunda: pessoas com o mesmo diagnóstico podem apresentar conjuntos de sintomas quase sem sobreposição, dado que os critérios são politéticos — exigem alguns de entre vários. Terceira: os limiares que separam a perturbação da normalidade são convencionais e não naturais. Quarta: a validade biológica das categorias não está estabelecida, e não existem biomarcadores que as confirmem.
Em resposta a estas limitações, desenvolveram-se abordagens alternativas complementares e não substitutivas. Os modelos dimensionais descrevem o funcionamento em contínuos — por exemplo, níveis de internalização e de externalização — em vez de categorias. Os modelos transdiagnósticos identificam processos comuns a várias perturbações, como a ruminação, a evitação experiencial, a desregulação emocional ou a intolerância à incerteza, e orientam intervenções que atuam sobre esses processos independentemente do diagnóstico. Nenhuma destas abordagens substituiu, até ao momento, os sistemas categoriais na prática corrente.
Os grandes agrupamentos habitualmente considerados são: as perturbações do neurodesenvolvimento, com início na infância; as perturbações do espetro da esquizofrenia e outras psicoses; as perturbações do humor, que incluem as depressivas e as bipolares; as perturbações de ansiedade e relacionadas com o medo; a perturbação obsessivo-compulsiva e perturbações relacionadas; as perturbações especificamente associadas ao stresse, por exemplo as relacionadas com trauma; as perturbações dissociativas; as perturbações do comportamento alimentar; as perturbações do sono-vigília; as perturbações por uso de substâncias e comportamentos aditivos; as perturbações da personalidade; e as perturbações neurocognitivas, que incluem as demências.
uma observação final sobre o modo de usar esta informação. As descrições que se seguem apresentam quadros típicos, e a apresentação individual afasta-se frequentemente do típico. Reconhecer-se numa descrição não é diagnóstico, e não se reconhecer não o exclui. A finalidade é compreender, formular perguntas e participar nas decisões — não autodiagnosticar-se.
Ver também as perguntas 43 (como é feito o diagnóstico) e 93 (comorbilidade).
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