Tratamento e recuperação · Pergunta 176

Como se realiza a ECT e quais são os riscos para a memória e a saúde?

Antes da eletroconvulsivoterapia, ou ECT, a equipa confirma a indicação, revê doenças físicas, anestesias anteriores e medicamentos, avalia a memória e explica benefícios, riscos e alternativas. Não existe uma lista universal de contraindicações absolutas: doença cardiovascular instável, hipertensão intracraniana e outras condições podem aumentar o risco e exigem avaliação e otimização especializadas.

O que acontece numa sessão

A pessoa recebe anestesia geral breve e um relaxante muscular. São monitorizados coração, tensão arterial, oxigénio e atividade cerebral. Elétrodos colocados no couro cabeludo administram um estímulo de segundos; a convulsão terapêutica é acompanhada por eletroencefalograma e os movimentos do corpo são muito reduzidos pelo relaxante. Depois, a pessoa acorda numa área de recobro e não conduz nesse dia segundo as instruções da equipa.

Os elétrodos podem ser colocados num lado, habitualmente o direito, ou em ambos os lados. A técnica unilateral direita e os impulsos ultrabreves tendem a reduzir efeitos cognitivos, mas podem exigir dose relativa maior ou mais sessões; a técnica bilateral pode atuar mais depressa em alguns quadros e causar mais efeitos de memória. Não existe uma configuração melhor para todas as pessoas.

Um curso agudo envolve frequentemente 6 a 12 sessões, duas ou três vezes por semana, mas o número é ajustado à resposta e aos possíveis efeitos secundários. A continuação nunca deve ser automática: em cada sessão reavaliam-se sintomas, memória, efeitos físicos, capacidade e vontade, e interrompe-se ou altera-se o plano quando os riscos superam os benefícios Espinoza e Kellner (2022).

Memória e outros possíveis efeitos secundários

Confusão ao acordar, cefaleia, dores musculares e náuseas são frequentes e geralmente transitórias. A dificuldade em aprender informação nova costuma melhorar nos dias ou semanas após o curso. Podem perder-se memórias autobiográficas de acontecimentos próximos do tratamento; numa parte das pessoas, algumas lacunas persistem. As médias dos testes cognitivos recuperam habitualmente, mas essa média não apaga a experiência de quem tem perda relevante. Por isso, a avaliação deve incluir o relato da própria pessoa, não apenas um teste breve.

A ECT provoca alterações transitórias da tensão arterial e da frequência cardíaca. Numa metanálise de 82 estudos, os acontecimentos cardíacos graves ocorreram aproximadamente num em cada 50 doentes e a morte foi rara — cerca de 0,06 por mil sessões —, com grande variação entre estudos Duma et al. (2019). O risco individual depende sobretudo da idade, das doenças físicas, da anestesia e da urgência clínica. Não há evidência de que a ECT moderna cause lesão estrutural do cérebro ou aumente o risco de demência Espinoza e Kellner (2022).

Consentimento é um processo

Assinar um formulário não basta. A pessoa deve receber informação compreensível, tempo possível para perguntar, oportunidade de envolver alguém de confiança e possibilidade de rever a decisão. Deve ser discutido o efeito na memória autobiográfica, a alternativa de não tratar ou de usar outro tratamento, o provável risco de recaída e o plano após o curso. Em Portugal, o consentimento escrito é a regra e aplicam-se as salvaguardas adicionais da Lei da Saúde Mental descritas na pergunta anterior.

Ver também as perguntas 46 (possíveis efeitos secundários), 58 (direitos), 62 (diretivas antecipadas) e 175 (indicações da ECT).

Informação geral: não substitui avaliação e cuidados individualizados. Consulte a política editorial e as fontes.