Perturbações · Pergunta 111
Como se trata a perturbação de hiperatividade e défice de atenção?
O tratamento combina intervenções psicossociais e farmacológicas, com peso relativo variável consoante a idade, a gravidade e a presença de comorbilidade. Em crianças em idade pré-escolar, as intervenções comportamentais dirigidas aos pais constituem a primeira linha. Em crianças mais velhas, em adolescentes e em pessoas adultas com quadros moderados a graves, a medicação é a intervenção com maior efeito sobre os sintomas nucleares.
A metanálise em rede de Cortese et al. (2018), publicada na Lancet Psychiatry, comparou medicamentos para esta condição em crianças, adolescentes e pessoas adultas, e é a referência para a escolha. Ponderadas em conjunto a eficácia e a tolerabilidade, concluiu pela recomendação do metilfenidato como primeira escolha em crianças e adolescentes, e das anfetaminas como primeira escolha em pessoas adultas, para tratamento a curto prazo.
Os estimulantes — metilfenidato e derivados anfetamínicos, por exemplo o dimesilato de lisdexanfetamina — apresentam as dimensões de efeito mais elevadas de toda a psicofarmacologia sobre os sintomas nucleares. Os possíveis efeitos secundários mais frequentes são a redução do apetite, a insónia quando administrados tardiamente, a cefaleia, o aumento ligeiro da frequência cardíaca e da tensão arterial, e a irritabilidade no final do efeito. Exigem vigilância do peso, do crescimento em crianças e dos parâmetros cardiovasculares.
Existem alternativas não estimulantes com evidência: a atomoxetina, inibidor da recaptação da noradrenalina, com início de efeito mais lento mas sem potencial de abuso; a guanfacina e a clonidina de libertação prolongada, sobretudo em crianças e com utilidade em comorbilidade com tiques; e o bupropiom, fora de indicação formal em vários contextos. Estas opções são indicadas quando existe contraindicação, intolerância, comorbilidade específica ou risco de desvio dos estimulantes.
A questão do risco de dependência merece resposta precisa, dada a preocupação frequente. Os estimulantes prescritos, em doses terapêuticas e por via oral, não produzem o padrão de dependência associado ao uso não médico. A investigação disponível indica que o tratamento adequado da condição se associa a redução, e não a aumento, do risco de perturbação por uso de substâncias, provavelmente por reduzir a impulsividade e a automedicação. Existe, contudo, risco real de desvio e de uso não médico, sobretudo em contextos académicos, que justifica vigilância da prescrição.
As intervenções psicossociais com evidência incluem: o treino parental em técnicas comportamentais, que é primeira linha em idade pré-escolar; as adaptações escolares, por exemplo tempo adicional, redução de distratores e fracionamento de tarefas; a terapia cognitivo-comportamental adaptada, em adolescentes e pessoas adultas, dirigida à organização, à gestão do tempo e às crenças desenvolvidas ao longo de anos de subdesempenho; e o treino de competências organizativas. Estas intervenções apresentam efeitos menores sobre os sintomas nucleares do que a medicação, mas efeitos superiores sobre o funcionamento e sobre as competências.
Em pessoas adultas, três domínios de intervenção prática merecem destaque: a estruturação externa do ambiente, com sistemas de registo, lembretes, rotinas fixas e redução de decisões; a gestão da energia ao longo do dia, com colocação das tarefas exigentes nos períodos de melhor funcionamento; e o trabalho sobre a autoimagem, dado que muitas pessoas chegam ao diagnóstico após décadas de interpretação dos sintomas como preguiça, desleixo ou falta de carácter.
Convém, por fim, tratar do sono e da comorbilidade antes de concluir por resposta insuficiente ao tratamento. A privação de sono produz um quadro clinicamente indistinguível de desatenção, a apneia obstrutiva do sono é frequente e subdiagnosticada, e a depressão e a ansiedade não tratadas comprometem qualquer intervenção.
Ver também as perguntas 110 (o que é a PHDA) e 32 (crianças e adolescentes).
Informação geral: não substitui avaliação e cuidados individualizados. Consulte a política editorial e as fontes.