Perturbações · Pergunta 110
O que é a perturbação de hiperatividade e défice de atenção e existe em pessoas adultas?
A perturbação de hiperatividade e défice de atenção é uma perturbação do neurodesenvolvimento caracterizada por um padrão persistente de desatenção, de hiperatividade e de impulsividade, com início na infância, presente em mais do que um contexto e com repercussão na funcionalidade. Afeta cerca de 5% das crianças e cerca de 2,5% a 3% das pessoas adultas.
Reconhecem-se três apresentações: predominantemente desatenta, predominantemente hiperativa-impulsiva, e combinada. A apresentação desatenta é sistematicamente subdiagnosticada, sobretudo em raparigas e em mulheres, por não produzir a perturbação comportamental que motiva a referenciação. As manifestações incluem dificuldade em manter a atenção em tarefas prolongadas, distratibilidade, aparente desatenção quando lhe falam, dificuldade em organizar tarefas, evitação de atividades que exigem esforço mental sustentado, perda de objetos e esquecimentos frequentes.
Sim, existe em pessoas adultas. A ideia de que a condição desaparece na idade adulta está desatualizada: a hiperatividade motora tende a atenuar-se, mas a desatenção, a desorganização e a impulsividade persistem numa proporção substancial dos casos. Em pessoas adultas, a apresentação é diferente e frequentemente não reconhecida: dificuldade crónica em iniciar e concluir tarefas, procrastinação, dificuldade na gestão do tempo, dificuldade em manter a atenção em reuniões e leituras, inquietação interna descrita como impossibilidade de descansar, impulsividade em decisões e em compras, instabilidade profissional e relacional, e sensação persistente de subdesempenho face ao potencial.
Um aspeto central e frequentemente omitido é a desregulação emocional, que não integra os critérios formais mas está presente na maioria dos casos: reações emocionais rápidas e intensas, baixa tolerância à frustração e dificuldade em regressar ao estado basal. Acresce o fenómeno da hiperfocalização — capacidade de atenção intensa e prolongada em atividades muito estimulantes —, aparentemente contraditório com o défice de atenção e que gera dúvidas sobre o diagnóstico. Não é contraditório: o défice é de regulação da atenção e não de capacidade atencional.
O diagnóstico em pessoas adultas exige a documentação de sintomas com início na infância, o que é feito através da história de desenvolvimento, de registos escolares e, quando possível, de informação de familiares. Exige igualmente a exclusão ou a caracterização de condições que produzem quadros semelhantes: perturbações de ansiedade, depressão, perturbação bipolar, consumo de substâncias, apneia do sono, disfunção tiroideia e perturbações da aprendizagem. A comorbilidade é a regra e não a exceção.
As consequências da condição não tratada estão bem documentadas e justificam a atenção ao diagnóstico: menor desempenho académico e profissional, maior risco de acidentes rodoviários, maior risco de consumo de substâncias, maior instabilidade relacional, maior risco de comportamento suicidário e menor esperança de vida. A ideia de que se trata de uma condição menor ou de uma invenção não é sustentada por evidência.
Existem, contudo, cautelas necessárias no atual contexto. O aumento acentuado de pedidos de avaliação em pessoas adultas, amplificado por conteúdos difundidos em plataformas digitais, coexiste com sobrediagnóstico em alguns contextos e subdiagnóstico persistente noutros, por exemplo em mulheres, em pessoas com baixos recursos e em pessoas com comorbilidade. Os sintomas descritos são inespecíficos e comuns a várias condições e a situações de sobrecarga, pelo que o autorreconhecimento em descrições genéricas não é diagnóstico e a avaliação deve ser clínica e completa.
Ver também as perguntas 111 (tratamento da PHDA) e 93 (comorbilidade).
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