Perturbações · Pergunta 116

Como se tratam as perturbações do comportamento alimentar?

O tratamento exige, na maioria dos casos, uma equipa multiprofissional que integre a dimensão psicológica, a nutricional e a médica. A prioridade inicial é sempre a estabilização física: nenhuma intervenção psicológica é eficaz num organismo em desnutrição grave, dado que a própria desnutrição produz alterações cognitivas, rigidez de pensamento e presença de sintomas de depressão e obsessiva que se resolvem parcialmente com a recuperação nutricional.

Na anorexia nervosa em crianças e adolescentes, o tratamento com melhor evidência é o tratamento baseado na família, por vezes designado método Maudsley. Assenta num princípio contraintuitivo mas empiricamente sustentado: as figuras parentais assumem temporariamente a responsabilidade total pela realimentação, sem culpabilização e sem procura de causas, e devolvem progressivamente a autonomia à medida que o peso e o funcionamento recuperam. Apresenta taxas de remissão superiores às das intervenções individuais nesta faixa etária.

Na anorexia nervosa em pessoas adultas, a evidência é menos robusta e nenhuma intervenção demonstrou superioridade clara. As opções com sustentação incluem a terapia cognitivo-comportamental melhorada, o modelo Maudsley para pessoas adultas e a gestão clínica especializada de apoio. A adesão é frequentemente difícil, e a ambivalência face à mudança é característica da condição e não sinal de falta de motivação.

Na bulimia nervosa e na perturbação de ingestão compulsiva, a terapia cognitivo-comportamental melhorada é a primeira linha, com evidência sólida. Trabalha a normalização do padrão alimentar, a interrupção do ciclo de restrição e ingestão compulsiva, a redução dos comportamentos compensatórios e a sobrevalorização do peso e da forma corporal na autoavaliação. Existem versões guiadas de autoajuda com eficácia demonstrada, o que melhora a acessibilidade.

quanto aos medicamentos, a evidência é limitada. Na anorexia nervosa, nenhum medicamento demonstrou eficácia sobre os sintomas nucleares ou sobre a recuperação de peso, e a prescrição destina-se ao tratamento de comorbilidades. Na bulimia nervosa, a fluoxetina em dose elevada apresenta eficácia demonstrada na redução dos episódios de ingestão compulsiva e de purga. Na perturbação de ingestão compulsiva, existem opções com indicação aprovada em alguns contextos. A medicação é, em qualquer dos casos, complemento e não substituto da intervenção psicológica e nutricional.

A indicação para internamento inclui: instabilidade médica, com bradicardia acentuada, hipotensão, alterações eletrolíticas ou arritmias; peso muito baixo com risco imediato; ausência de resposta ao tratamento em ambulatório com deterioração progressiva; risco de suicídio; e incapacidade do contexto familiar de assegurar a realimentação. Existem unidades especializadas, embora a sua disponibilidade em Portugal seja limitada e desigual.

Quanto ao prognóstico, importa ser honesto sem induzir desespero. Uma proporção substancial das pessoas recupera completamente, sobretudo quando o tratamento é iniciado precocemente e em idade jovem; outra proporção apresenta melhoria parcial com sintomatologia residual; e uma minoria evolui para quadro crónico. A duração da doença não tratada é um dos preditores mais consistentes de pior evolução, o que confere valor decisivo à deteção precoce.

Para familiares, quatro orientações práticas: procurar ajuda especializada sem demora e sem esperar por reconhecimento do problema pela pessoa; evitar comentários sobre peso, corpo ou aparência, por exemplo elogios; não transformar as refeições em campo de batalha nem em negociação permanente, o que exige apoio profissional; e obter apoio próprio, dado que o desgaste destas situações é elevado e prolongado. A culpabilização parental, historicamente presente nesta área, carece de fundamento: as famílias não causam estas perturbações e são parte essencial da solução.

Ver também as perguntas 115 (o que são) e 87 (cuidar de si).

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