Perturbações · Pergunta 115
Quais são as perturbações do comportamento alimentar?
As perturbações do comportamento alimentar caracterizam-se por alterações persistentes do comportamento alimentar ou de comportamentos relacionados com o controlo do peso, que comprometem a saúde física ou o funcionamento psicossocial. Apresentam a mortalidade mais elevada de todas as perturbações mentais, e este é um dado que raramente é comunicado com a clareza necessária.
A anorexia nervosa caracteriza-se pela restrição da ingestão que conduz a peso significativamente baixo para a idade, o sexo e o desenvolvimento; pelo medo intenso de ganhar peso ou por comportamento persistente que interfere com o ganho de peso; e por perturbação da vivência do peso e da forma corporal, com influência indevida sobre a autoavaliação ou ausência de reconhecimento da gravidade. Distinguem-se um subtipo restritivo e um subtipo com ingestão compulsiva e comportamentos compensatórios.
A bulimia nervosa caracteriza-se por episódios recorrentes de ingestão compulsiva — ingestão de quantidade claramente superior à habitual num período delimitado, com sensação de perda de controlo — seguidos de comportamentos compensatórios inapropriados: vómito autoinduzido, uso de laxantes ou diuréticos, jejum ou exercício excessivo. O peso situa-se frequentemente na faixa normal, o que contribui para que a condição permaneça oculta durante anos.
A perturbação de ingestão compulsiva caracteriza-se por episódios recorrentes de ingestão compulsiva sem comportamentos compensatórios regulares, acompanhados de mal-estar acentuado. É a perturbação do comportamento alimentar mais prevalente e a mais recentemente reconhecida como entidade autónoma. Associa-se frequentemente a excesso de peso, mas não se confunde com ele: a maioria das pessoas com obesidade não apresenta esta perturbação, e existem pessoas com peso normal que a apresentam.
Completam o grupo a perturbação de ingestão alimentar evitante ou restritiva, caracterizada por restrição sem preocupação com o peso ou a forma corporal — por seletividade sensorial, por desinteresse ou por receio de consequências aversivas —, com maior prevalência em crianças e em pessoas autistas; a pica; a ruminação; e as apresentações que não cumprem todos os critérios mas comprometem o funcionamento, que constituem a maioria dos casos na prática clínica.
As complicações físicas são graves e podem ser fatais. Na anorexia nervosa: bradicardia, hipotensão, arritmias, alterações eletrolíticas, osteoporose, amenorreia, atrofia cerebral parcialmente reversível e alterações do crescimento em adolescentes. Na bulimia nervosa: erosão do esmalte dentário, hipertrofia das parótidas, esofagite, alterações eletrolíticas com risco de arritmia — a hipocaliemia por vómito ou por abuso de laxantes é causa de morte súbita. A síndrome de realimentação, que ocorre quando a nutrição é reintroduzida demasiado rapidamente após período prolongado de restrição, é emergência médica.
Alguns sinais de alerta que familiares e amigos podem reconhecer: preocupação crescente e desproporcionada com alimentação, peso ou forma corporal; evitação de refeições em conjunto; ida à casa de banho imediatamente após as refeições; regras alimentares rígidas e crescentes; eliminação progressiva de grupos alimentares; exercício compulsivo e rígido, mantido apesar de doença ou lesão; uso de roupa larga; alterações do humor; isolamento social; e, na anorexia, negação da gravidade apesar de evidência física.
Existe uma barreira específica ao reconhecimento: em várias destas condições, os sintomas são socialmente valorizados. O elogio da perda de peso, da disciplina alimentar e da dedicação ao exercício reforça comportamentos patológicos e atrasa a procura de ajuda. Este é um dos poucos domínios da saúde mental em que a cultura envolvente promove ativamente o sintoma.
Ver também as perguntas 116 (tratamento) e 23 (alimentação).
Informação geral: não substitui avaliação e cuidados individualizados. Consulte a política editorial e as fontes.