Saúde mental LGBTQIA+ · Pergunta 163

Crianças e adolescentes trans e de género diverso: o que se sabe e o que se discute?

Porque é que esta pergunta é diferente

Este é o tema em que a evidência é mais limitada, o debate é mais aceso e a informação pública é mais distorcida em ambos os sentidos. Esta página trata-a como trata as restantes matérias controversas: expõe o que está estabelecido, expõe o que está em disputa, e não apresenta como consensual aquilo que não é.

O que está estabelecido

A variação de género na infância é frequente e, na maioria das crianças, não persiste até à adolescência. A identidade trans que persiste na adolescência tende a manter-se. As crianças e adolescentes trans e de género diverso apresentam prevalências elevadas de depressão, de ansiedade e de comportamento suicidário. E o apoio familiar é, também aqui, o fator protetor com maior peso: a rejeição parental associa-se a pior depressão e a maior suicidalidade, e a rejeição por parte de figuras parentais masculinas apresenta, num estudo, associação particularmente forte com a suicidalidade ao longo da vida (Bosse et al., 2024).

Está igualmente estabelecido que as práticas destinadas a alterar a identidade da criança não funcionam e produzem dano, e que são crime em Portugal.

O que a evidência sobre intervenções mostra

Um estudo prospetivo com 104 jovens entre os 13 e os 20 anos, seguidos durante doze meses, documentou probabilidade 60% inferior de depressão e 73% inferior de suicidalidade em quem iniciou bloqueadores da puberdade ou hormonas de afirmação, por comparação com quem os desejava e não os iniciou, após ajustamento (Tordoff et al., 2022). Outros estudos prospetivos apontam na mesma direção.

As limitações são reais e devem ser ditas: amostras pequenas, seguimentos curtos, ausência de aleatorização, e a impossibilidade de distinguir integralmente o efeito da intervenção do efeito de estar num serviço que acolhe. Revisões de evidência conduzidas em vários países europeus concluíram que a certeza é baixa e recomendaram maior prudência e maior investigação, e alguns sistemas de saúde restringiram o acesso em consequência. Esta divergência entre jurisdições é real e não se resolve por invocação de autoridade.

O que não está em disputa

Três pontos reúnem acordo entre posições opostas neste debate, e é sobre eles que uma família pode agir com segurança. Primeiro: a criança ou o adolescente deve ser ouvido, sem ridicularização e sem pressão em qualquer direção. Segundo: a avaliação deve ser feita por equipa com experiência, com tempo, e deve identificar coocorrências — autismo, perturbações do comportamento alimentar, trauma, ansiedade — que exigem cuidados próprios e cuja omissão prejudica a pessoa. Terceiro: nenhuma decisão urgente é necessária, e nenhuma decisão irreversível deve ser tomada sob pressão, seja ela para agir ou para não agir.

O que fazer quem acompanha

Escutar sem concluir. Não forçar uma identidade nem forçar o seu abandono — as duas coisas são intervenções e as duas têm consequências. Usar o nome e os pronomes que a criança pede, o que é reversível, não exige decisão médica nenhuma e tem efeito protetor documentado. Trabalhar com a escola, onde uma parte substancial do sofrimento se produz. Procurar avaliação especializada sem a apresentar como prova ou como julgamento. E cuidar de si: as famílias nesta situação estão frequentemente expostas a pressão de todos os lados e beneficiam de apoio próprio.

O que evitar

Evitar as duas certezas. A que afirma que qualquer hesitação é transfobia, e a que afirma que qualquer criança que exprime diversidade de género está a ser influenciada. Ambas dispensam a criança concreta que se tem à frente. E evitar tomar decisões — em qualquer direção — com base em conteúdos de redes sociais ou em posições públicas, que nesta matéria estão entre os menos fiáveis de toda a saúde mental.

Quando é urgência

Ideação suicida, autolesão, recusa de ir à escola por bullying, ou situação de rejeição familiar com risco de expulsão de casa. Em qualquer destas, a resposta é imediata e não depende de qualquer conclusão sobre a identidade.

Ver também as perguntas 32 (crianças e adolescentes) e 160 (alguém se assumiu comigo).

Informação geral: não substitui avaliação e cuidados individualizados. Consulte a política editorial e as fontes.