Situações e comportamentos · Pergunta 141

Desorientação no tempo, no espaço e quanto à pessoa: como orientar sem humilhar?

O que se passa e porquê

A desorientação segue habitualmente uma sequência: perde-se primeiro a noção do tempo, depois a do espaço e, por último e mais tardiamente, a identificação das pessoas. Esta ordem tem valor diagnóstico, e a sua inversão ou a instalação abrupta de qualquer delas obriga a pensar em causa aguda.

A distinção decisiva é entre delirium e demência, e é a mais frequentemente falhada. O delirium instala-se em horas ou dias, flutua ao longo do dia com agravamento vespertino e noturno, acompanha-se de alteração do estado de consciência e da atenção, e tem sempre causa identificável — infeção, desidratação, obstipação, retenção urinária, dor, medicação, privação de álcool, alteração metabólica. É reversível se tratado e é uma emergência médica: associa-se a mortalidade elevada e é sistematicamente confundido com agravamento da demência ou com quadro psiquiátrico. A demência instala-se ao longo de meses a anos, é progressiva e não flutua desta forma.

O que a própria pessoa pode fazer

Nas fases iniciais, os apoios externos são eficazes e devem ser instalados cedo, enquanto a pessoa os pode escolher: relógio digital com data visível, calendário grande, agenda única, etiquetas nas portas, fotografias identificadas, rotina estável e objetos sempre no mesmo sítio. A correção de visão e de audição tem impacto maior do que se supõe, porque o défice sensorial agrava a desorientação. E manter as saídas e o contacto social protege — o isolamento acelera.

O que fazer quem acompanha

A regra é orientar sem testar. Fornecer a informação em vez de a exigir: dizer «bom dia, sou a Ana, sua filha; hoje é terça-feira e vamos à consulta às onze» faz mais do que perguntar «sabe quem eu sou?». O interrogatório expõe a falha e produz ansiedade, oposição e, frequentemente, o comportamento que se pretendia evitar.

Simplificar a comunicação: uma ideia de cada vez, frases curtas, ritmo lento, contacto visual, e nomear o que vai acontecer antes de o fazer. Manter luz adequada, sobretudo ao fim do dia, e reduzir ruído e espelhos, que confundem. Estabilizar rotinas e evitar mudanças desnecessárias de ambiente. Verificar sempre as causas físicas quando há agravamento súbito.

Quanto ao que a pessoa afirma e não corresponde à realidade — procurar a mãe já falecida, querer ir para casa quando já está em casa —, a orientação repetida e insistente produz sofrimento sem benefício. A abordagem que funciona é a validação: responder à emoção que está por trás e não ao facto. «Sente falta da sua mãe? Fale-me dela» resolve mais do que a repetição de que a mãe morreu, que é vivida como uma perda nova de cada vez.

O que nunca fazer

Não fazer perguntas de teste em série. Não corrigir repetidamente com insistência. Não confrontar com a morte de familiares de forma reiterada. Não discutir, não elevar a voz, não mudar de sítio os objetos, não alterar o ambiente sem necessidade. Não falar da pessoa na sua presença. Não usar contenção física nem trancar. E não atribuir a agitação à demência sem excluir dor, infeção, obstipação, retenção urinária e efeito de medicação.

Quando é urgência

Desorientação de instalação súbita ou de agravamento rápido, sobretudo com flutuação ao longo do dia, sonolência ou agitação alternadas, febre, alteração da urina, obstipação prolongada, queda recente ou mudança recente de medicação. Nesses casos suspeite de delirium e procure avaliação médica no próprio dia.

Ver também as perguntas 125 (demência) e 128 (pessoas idosas).

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