Perturbações · Pergunta 125

O que é a demência e como se distingue do envelhecimento normal?

A demência, designada nas classificações atuais por perturbação neurocognitiva major, caracteriza-se por declínio cognitivo significativo face ao nível prévio, em um ou mais domínios — atenção complexa, função executiva, aprendizagem e memória, linguagem, capacidade percetivo-motora ou cognição social —, com interferência na autonomia nas atividades de vida diária. Não é uma doença única mas uma síndrome com múltiplas causas.

As causas mais frequentes são a doença de Alzheimer, responsável por cerca de 60% a 70% dos casos; a demência vascular, associada a doença cerebrovascular; a demência com corpos de Lewy, com flutuações cognitivas, alucinações visuais e parkinsonismo; e a degenerescência lobar frontotemporal, com início mais precoce e predomínio de alterações do comportamento e da linguagem. São frequentes as formas mistas, sobretudo em idades avançadas.

A distinção face ao envelhecimento normal assenta em critérios reconhecíveis. No envelhecimento normal, é comum a lentificação do processamento, a maior dificuldade em recordar nomes e palavras, e a necessidade de mais tempo para aprender informação nova — com preservação da autonomia e com a informação a ser recuperada mais tarde ou com pistas. Na demência, o esquecimento é de acontecimentos recentes inteiros e não de pormenores, não melhora com pistas, é acompanhado de repetição das mesmas perguntas, de desorientação em locais conhecidos, de dificuldade em tarefas antes automáticas e de perda de autonomia.

Sinais que justificam avaliação incluem: dificuldade crescente em gerir dinheiro, medicação ou compromissos; perder-se em percursos habituais; dificuldade em encontrar palavras que interrompe a comunicação; colocar objetos em locais inadequados; alterações do juízo e de decisões; alterações de personalidade e do comportamento social; e apatia ou retraimento. Quando são terceiros e não a própria pessoa a manifestar preocupação, o valor preditivo é superior.

É essencial excluir causas reversíveis ou tratáveis antes de firmar o diagnóstico, dado que várias condições produzem quadros semelhantes: a depressão, que em pessoas idosas se apresenta frequentemente com queixas cognitivas — quadro historicamente designado por pseudodemência —; o hipotiroidismo; os défices de vitamina B12 e de folato; a apneia obstrutiva do sono; a hidrocefalia de pressão normal; os hematomas subdurais; as infeções; e o efeito de medicamentos com ação anticolinérgica, benzodiazepinas e outros. Os défices sensoriais não corrigidos, auditivos e visuais, produzem igualmente diminuição aparente do desempenho cognitivo.

O diagnóstico assenta na história clínica obtida com a pessoa e com informante, na avaliação cognitiva com instrumentos padronizados, no exame neurológico, em análises e em neuroimagem. A avaliação neuropsicológica formal é útil nos casos de apresentação atípica, de início precoce ou de dúvida diagnóstica.

Existe uma categoria intermédia relevante: o défice cognitivo ligeiro, em que existe declínio objetivável sem perda de autonomia. Nem todas as pessoas com défice cognitivo ligeiro progridem para demência — uma proporção mantém-se estável e outra regride —, o que torna esta fase alvo privilegiado de intervenção sobre fatores modificáveis.

Uma orientação sobre a comunicação do diagnóstico: a pessoa tem direito a conhecê-lo, e a prática de o comunicar apenas à família, ainda frequente, é eticamente problemática e retira à pessoa a possibilidade de planear a sua vida, de organizar assuntos financeiros e legais e de elaborar diretivas antecipadas de vontade enquanto mantém capacidade para o fazer.

Ver também as perguntas 126 (prevenção e cuidado) e 128 (pessoas idosas).

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