Sinais e prevenção · Pergunta 33
É possível prevenir a doença mental?
Em parte, sim, embora a resposta exija precisão. O Institute of Medicine distingue três níveis de prevenção segundo o alvo. A prevenção universal dirige-se à população geral, independentemente do risco individual: programas escolares de competências socioemocionais, políticas de preço e de disponibilidade do álcool, redução do acesso a meios letais, regulação da publicidade a jogo. A prevenção seletiva dirige-se a grupos com risco acrescido, identificados por características de grupo e não por sintomas: filhos de pessoas com doença mental grave, pessoas em situação de desemprego prolongado, pessoas em luto, migrantes recentes. A prevenção indicada dirige-se a pessoas que já apresentam sintomas subclínicos, sem cumprirem critérios de diagnóstico.
A evidência de eficácia é mais robusta na prevenção indicada e seletiva do que na universal, medida em redução relativa de incidência. As intervenções indicadas na depressão, por exemplo, demonstram reduções da incidência na ordem dos 20% a 25% em pessoas com sintomatologia subclínica. Contudo, esta comparação é enganadora se não considerar o alcance: a prevenção universal atinge números muito superiores de pessoas e, mesmo com efeito individual pequeno, pode produzir maior impacto populacional. É a aplicação, à saúde mental, do paradoxo de Rose: um grande número de pessoas com risco pequeno gera mais casos do que um pequeno número de pessoas com risco elevado.
Existem exemplos concretos de prevenção eficaz que merecem registo. A limitação do acesso a meios letais reduz a mortalidade por suicídio de forma consistente e mensurável. Os programas de visitação domiciliária por profissionais de enfermagem a famílias vulneráveis no período perinatal demonstraram, em seguimentos de longo prazo, redução dos maus-tratos e melhores resultados de saúde mental na descendência. As intervenções precoces na psicose reduzem a duração da doença não tratada e melhoram o prognóstico funcional. As políticas de proteção do rendimento e de habitação associam-se a redução da incidência de perturbações mentais comuns em estudos quase-experimentais.
Convém, porém, ser claro sobre os limites. Nenhum programa elimina o risco. As perturbações com componente genética mais forte, por exemplo a esquizofrenia e a perturbação bipolar, não são hoje preveníveis no sentido próprio do termo, embora seja possível atenuar fatores precipitantes — consumo de canábis de elevada potência, privação de sono, isolamento — e antecipar substancialmente a intervenção. A prevenção realista tem por objetivo a redução da incidência, o atraso do início e a atenuação da gravidade, e não a erradicação.
Existe, por fim, uma constatação incómoda para o setor da saúde. A prevenção mais eficaz opera, em larga medida, fora do sistema de cuidados: na redução da pobreza infantil, na proteção contra os maus-tratos, na qualidade e na estabilidade da habitação, na regulação do consumo de álcool, na organização do trabalho, no desenho urbano e na educação. Um sistema de saúde mental bem financiado mas inserido numa sociedade com elevada desigualdade, precariedade habitacional e insegurança laboral trata mais casos do que os que consegue prevenir. Reconhecer isto não desvaloriza os cuidados clínicos; situa-os.
Ver também as perguntas 6 (causas) e 42 (prevenção do suicídio).
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