Situações e comportamentos · Pergunta 147
Mentira: porque acontece e o que fazer?
Desfazer o rótulo, sem negar o que ele descreve
«Mente sobre tudo» é uma das frases que mais rapidamente fecha a compreensão de uma pessoa. Convém, por isso, separar duas coisas que a palavra confunde. A mentira, no sentido comum, supõe conhecimento da verdade e intenção de enganar em benefício próprio. Grande parte do que é assim classificado em contexto de saúde mental não cumpre nenhuma destas duas condições — e, quando cumpre, quase nunca tem o significado que lhe é atribuído.
Ao mesmo tempo, seria inútil negar o que a palavra descreve. Quem convive com afirmações que não correspondem aos factos vive uma erosão real da confiança, e essa erosão tem consequências práticas: deixa de se saber o que é seguro assumir. Reconhecer isso é condição para qualquer conversa produtiva.
O que se passa e porquê
Existem pelo menos seis explicações, e apenas uma delas corresponde à mentira no sentido comum. A confabulação, frequente na demência, no síndrome de Korsakoff e após lesão cerebral, consiste na produção involuntária de conteúdos que preenchem lacunas de memória; a pessoa acredita no que diz e não está a enganar ninguém. O delírio produz afirmações falsas sustentadas por convicção absoluta. A ocultação por medo de consequências — perder a autonomia, ser internado, decepcionar — é a explicação mais frequente e é comportamento de proteção, não de engano. A vergonha leva a minimizar consumos, dívidas, comportamentos sexuais e sintomas. A dificuldade em admitir perda de capacidade leva à negação de esquecimentos e de falhas. E existe, sim, mentira instrumental, sobretudo associada a dependências, em que a substância organiza o comportamento em torno da sua obtenção.
O que a própria pessoa pode fazer
Se a ocultação é motivada pelo medo, nomear esse medo produz mais do que qualquer promessa de verdade: dizer «não conto porque tenho medo de que me internem» abre uma conversa que a afirmação falsa fecha. Quando a informação omitida é clínica — consumos, ideação suicida, medicação não tomada —, o cálculo é desfavorável: a ocultação leva a decisões erradas tomadas sobre dados falsos. E, quando a memória falha, dizer que não se recorda é preferível a preencher, ainda que custe mais.
O que fazer quem acompanha
Identificar qual das seis explicações está em causa antes de responder — a resposta correta é diferente em cada uma. Perante confabulação e delírio, não confrontar nem exigir retificação, porque não existe engano a corrigir. Perante ocultação por medo, reduzir o custo da verdade: dizer explicitamente o que acontece e o que não acontece se ela for dita, e cumprir. Perante vergonha, evitar a pergunta que obriga a admitir e substituí-la por uma formulação que normalize: «muitas pessoas nesta situação bebem mais do que gostariam — como é contigo?».
Perante mentira instrumental no contexto de dependência, a resposta é diferente e envolve limites claros: verificar o que é verificável em vez de acreditar ou desacreditar, não financiar sem condições, e não fazer da confiança uma questão de honra. E, em qualquer caso, verificar factos com discrição em vez de montar armadilhas — a armadilha humilha e não produz informação melhor.
O que nunca fazer
Não chamar mentiroso. Não confrontar com provas para obter confissão, o que produz negação mais firme. Não contar a terceiros para envergonhar. Não instalar vigilância generalizada. Não exigir promessas de verdade absoluta. E não corrigir repetidamente quem confabula — cada correção é uma perda nova.
Quando é urgência
Quando a informação omitida tem consequências imediatas: ideação suicida negada mas com sinais presentes, consumos que interagem com a medicação, sintomas de agravamento escondidos, ou incapacidade negada em situação de risco — condução, gestão de dinheiro, cuidado de crianças.
Ver também as perguntas 148 (ocultação da sintomatologia) e 122 (perturbações por uso de substâncias).
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