Cuidar no dia a dia · Pergunta 25
O álcool e outras substâncias ajudam a lidar com o mal-estar?
A curto prazo, sim, e é precisamente aí que reside o problema. O álcool abranda a atividade do sistema nervoso central: reforça a ação do ácido gama-aminobutírico, ou GABA, um mensageiro que reduz a atividade das células nervosas, e trava a do glutamato, que tende a aumentá-la. Este efeito pode aliviar a ansiedade de forma real, imediata e previsível, o que ajuda a explicar o consumo para regular o mal-estar emocional.
O que se segue é menos visível. Nas horas subsequentes, os sistemas neurotransmissores compensam a depressão inicial com um estado de hiperexcitabilidade — o efeito de ressalto (rebound) — que se manifesta por ansiedade aumentada, despertares na segunda metade da noite, taquicardia e humor deprimido no dia seguinte. O sono, embora induzido mais rapidamente, torna-se fragmentado e pobre em sono de movimentos oculares rápidos, com prejuízo da consolidação emocional.
O uso repetido com finalidade reguladora instala um ciclo de reforço negativo: cada episódio alivia o desconforto a curto prazo e aumenta-o a médio prazo, o que motiva novo consumo com dose progressivamente maior. É este mecanismo, e não a quantidade absoluta ingerida em cada ocasião, que melhor ajuda a prever a evolução para uma perturbação por uso de substâncias. A pergunta clinicamente mais informativa não é «quanto bebe?» mas «para que bebe?».
O mesmo raciocínio aplica-se, com particularidades, a outras substâncias. A canábis reduz a ansiedade em alguns consumidores e aumenta-a noutros, associa-se a diminuição da motivação e alterações da memória de trabalho com uso regular e é fator de risco demonstrado para a psicose, sobretudo nas variedades de elevada potência e no consumo iniciado na adolescência. As benzodiazepinas usadas fora de prescrição produzem tolerância rápida e dependência física, com síndrome de descontinuação que inclui ansiedade de ressalto frequentemente confundida com a ansiedade original. Os estimulantes produzem ativação seguida de descida do humor. Os analgésicos opioides apresentam risco de dependência elevado mesmo com utilização inicialmente legítima.
Quanto aos limiares de risco, as orientações portuguesas e europeias situam o consumo de baixo risco em valores substancialmente inferiores aos que a cultura social considera normais, e a investigação recente questiona a existência de qualquer nível de consumo isento de risco oncológico. Do ponto de vista da saúde mental, o critério mais útil não é o limiar quantitativo mas o padrão funcional: consumir para dormir, para enfrentar situações sociais, para suportar o trabalho ou para não pensar é sinal de alerta independentemente da quantidade.
Vários instrumentos breves permitem a autoavaliação, por exemplo o AUDIT e a sua versão reduzida, disponíveis nos cuidados de saúde primários. As intervenções breves em contexto de cuidados primários — uma a quatro sessões de aconselhamento estruturado — apresentam eficácia demonstrada na redução do consumo de risco, com efeito modesto mas custo reduzido e alcance populacional elevado.
Quando o padrão de consumo já se instalou, a resposta existe e é acessível. Em Portugal, o Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências e as respetivas equipas de tratamento asseguram avaliação e acompanhamento gratuitos, sem necessidade de referenciação. Existem tratamentos com medicamentos com eficácia demonstrada para a dependência de álcool e de opioides, e intervenções psicossociais estruturadas. A interrupção abrupta do consumo elevado e prolongado de álcool ou de benzodiazepinas pode originar síndrome de privação grave, com risco de convulsões e de delirium, e não deve ser tentada sem avaliação clínica.
Convém, por último, evitar dois erros simétricos. O primeiro é a banalização — «bebo só socialmente», «é uma questão de força de vontade» — que atrasa a procura de ajuda por vezes durante décadas. O segundo é a moralização, que transforma um problema de saúde em falha de carácter e produz vergonha, o principal obstáculo documentado ao tratamento das dependências.
Ver também as perguntas 34 (fatores de risco) e 122 (perturbações por uso de substâncias).
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