Tratamento e recuperação · Pergunta 44
O diagnóstico pode estar errado ou mudar ao longo do tempo?
Por outras palavras
Um diagnóstico pode mudar quando surgem novas informações ou quando os sintomas se tornam mais claros.
Isso pode refletir uma revisão necessária ou a correção de um erro. Pode pedir que lhe expliquem o que mudou e porquê.
Esta versão explica a ideia principal. A resposta completa mantém os detalhes, os limites e as orientações de cada situação.
Ler a resposta completaFontes da resposta original
Pode, e as duas situações são diferentes. Um diagnóstico errado é aquele que não correspondia ao quadro no momento em que foi feito. Um diagnóstico que muda é, muitas vezes, o resultado correto de um processo em que a informação disponível aumentou ou em que a própria condição evoluiu. Confundir as duas coisas leva a conclusões injustas sobre os profissionais e, o que é mais grave, à desconfiança generalizada em relação a qualquer diagnóstico.
Convém distinguir duas propriedades. A fiabilidade diz respeito à concordância: se dois clínicos avaliarem a mesma pessoa, atribuirão o mesmo diagnóstico? Os ensaios de campo do DSM-5 mediram-na e os resultados foram heterogéneos (Regier et al., 2013). A concordância foi boa em condições como a perturbação de stresse pós-traumático e as perturbações neurocognitivas major, moderada em várias outras, e claramente insuficiente na perturbação depressiva major e na perturbação de ansiedade generalizada. Este dado é habitualmente omitido no discurso público e deve ser conhecido: a psiquiatria diagnostica com fiabilidade variável consoante a categoria. A estabilidade diz respeito à persistência: a maioria dos quadros mantém-se razoavelmente estável ao longo de anos, mas algumas condições definem-se precisamente pela variação, como a perturbação bipolar.
O exemplo mais estudado de mudança legítima é o da perturbação bipolar. Cerca de metade das pessoas com esta condição inicia o quadro por um episódio depressivo, sem qualquer sinal de elevação do humor. O diagnóstico de perturbação depressiva atribuído nesse momento não é um erro: é a melhor leitura da informação disponível. Um estudo com 382 pessoas documentou um intervalo médio de 8,7 anos entre o diagnóstico inicial de depressão e a conversão para perturbação bipolar (Fritz et al., 2017). A hipomania raramente motiva procura de ajuda, porque não é vivida como problema, e frequentemente não é perguntada.
As fontes de erro propriamente dito são identificáveis. A sobreposição de sintomas entre categorias — fadiga, irritabilidade, dificuldade de concentração — é a mais comum. A história clínica incompleta, sobretudo quando falta informação de familiares, é a segunda. O tempo de consulta insuficiente é a terceira, e é estrutural. Acrescem a condição física não detetada, as barreiras linguísticas e culturais, o ensombramento diagnóstico — atribuir à perturbação conhecida sintomas que têm outra causa — e os enviesamentos documentados de género, que produzem subdiagnóstico da apresentação desatenta da perturbação de hiperatividade e défice de atenção nas raparigas e do autismo nas mulheres.
Existe um conjunto de práticas que a pessoa pode adotar e que aumentam a probabilidade de um diagnóstico correto. Levar uma cronologia escrita, com datas aproximadas de início dos sintomas, períodos de melhoria e agravamento, acontecimentos de vida relevantes e tratamentos anteriores com respetivos efeitos. Levar, sempre que possível, alguém que conviva de perto, porque há sinais que a própria pessoa não observa. Responder às perguntas sobre períodos de energia elevada, redução da necessidade de sono e comportamento impulsivo mesmo que pareçam irrelevantes. E fazer duas perguntas ao clínico: que outros diagnósticos foram considerados, e o que faria mudar esta hipótese.
Quando o diagnóstico merece revisão? Quando o tratamento adequado à condição diagnosticada não produz qualquer efeito após tempo suficiente e em dose adequada; quando um antidepressivo desencadeia agitação, irritabilidade acentuada ou redução da necessidade de sono; quando surgem sintomas que não cabem no quadro; quando a evolução contraria o esperado; e quando a pessoa nunca se reviu na descrição. Pedir uma segunda opinião é um direito e uma prática clínica normal, não uma ofensa à equipa que acompanha. Uma segunda opinião pedida com a informação organizada e com os registos anteriores disponíveis é muito mais útil do que uma avaliação recomeçada do zero.
Ver também as perguntas 43 (como é feito o diagnóstico) e 58 (direitos).
Informação geral: não substitui avaliação e cuidados individualizados. Consulte a política editorial e as fontes.