Perturbações · Pergunta 94
O que é a depressão e como se distingue da tristeza?
A perturbação depressiva caracteriza-se pela presença, durante pelo menos duas semanas e na maior parte dos dias, de humor deprimido ou de perda marcada de interesse e de prazer, acompanhados de um conjunto de outros sintomas e associados a sofrimento significativo ou a repercussão na funcionalidade. É uma das condições mais prevalentes e mais incapacitantes a nível mundial, e em Portugal as perturbações do humor apresentaram uma prevalência anual de 7,9% (Caldas de Almeida & Xavier, 2013).
A distinção face à tristeza normal assenta em cinco critérios e não apenas na intensidade. A duração: a tristeza é episódica e flutua; a depressão é persistente e ocupa a maior parte do dia, quase todos os dias. A pervasividade: a tristeza convive com momentos de prazer e alívio; na depressão, a anedonia — incapacidade de sentir prazer — estende-se a praticamente tudo. A proporcionalidade: a tristeza é compreensível em comparação com um acontecimento; a depressão pode surgir sem causa identificável ou persistir muito além do acontecimento. A funcionalidade: a tristeza permite manter as atividades essenciais; a depressão compromete o trabalho, as relações e o autocuidado. E a presença de sintomas físicos e cognitivos que não pertencem à tristeza: alterações do sono e do apetite, lentificação ou agitação psicomotora, fadiga persistente, sentimentos de inutilidade ou de culpa excessiva, dificuldade de concentração e pensamentos de morte.
Merece atenção específica a anedonia, por ser o sintoma mais discriminativo e o menos compreendido por quem observa de fora. Não se trata de tristeza intensa, mas de ausência: a pessoa não sente prazer no que antes lhe dava prazer, não antecipa satisfação e, frequentemente, descreve um estado de vazio ou de embotamento pior do que a dor. É esta característica que explica que a depressão não melhore com boas notícias nem com atividades agradáveis, e que torna inútil o conselho de «distrair-se».
A depressão apresenta-se de formas variáveis. Em homens e em adolescentes, a irritabilidade e o consumo de substâncias predominam frequentemente sobre a tristeza verbalizada. Nas pessoas idosas, predominam as queixas físicas, a apatia e as queixas de memória, o que contribui para o subdiagnóstico e para a confusão com demência. Em contextos culturais que desencorajam a expressão emocional, a apresentação física é a regra. E existem formas com características específicas: com sintomas melancólicos, com sintomas atípicos, com sintomas psicóticos, com padrão sazonal e com início no periparto.
É essencial distinguir a depressão do luto. O luto é uma resposta normal à perda, caracteriza-se por ondas de dor intercaladas com períodos de funcionamento, preserva a autoestima e permite a experiência de momentos positivos. A depressão apresenta humor persistentemente deprimido, autodesvalorização e anedonia generalizada. Podem, contudo, coexistir, e uma perda pode precipitar um episódio depressivo — situação que exige tratamento e não apenas tempo.
Importa igualmente excluir causas médicas e farmacológicas antes de firmar o diagnóstico, por exemplo o hipotiroidismo, a anemia, os défices vitamínicos, a apneia do sono, a doença neurológica e o efeito de medicamentos. E importa, sobretudo, rastrear a existência de episódios prévios de elevação do humor, dado que a presença de mania ou de hipomania altera o diagnóstico para perturbação bipolar e altera radicalmente o tratamento.
Ver também as perguntas 95 (sintomas e diagnóstico) e 102 (perturbação bipolar).
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