Perturbações · Pergunta 106

O que é a intervenção precoce na psicose?

A intervenção precoce na psicose designa um modelo de cuidados especializados, dirigido às fases iniciais da doença, que combina a deteção rápida de novos casos com um pacote de intervenções integradas prestadas por equipa multiprofissional durante um período definido, habitualmente de dois a cinco anos após o primeiro episódio.

O fundamento assenta em duas constatações. A primeira é a existência de um período crítico nos primeiros anos após o início da psicose, durante o qual ocorre a maior parte da deterioração funcional e se estabelecem os padrões de evolução a longo prazo. A segunda é a associação consistente entre a duração da psicose não tratada e o prognóstico: quanto maior o intervalo entre o início dos sintomas e o tratamento adequado, pior a resposta sintomática, o funcionamento e a qualidade de vida.

Os componentes habituais destes programas incluem: intervenção assertiva na comunidade, com gestão de caso e contacto frequente; medicação antipsicótica em doses habitualmente inferiores às utilizadas em fases posteriores; intervenção familiar sistemática; terapia cognitivo-comportamental; apoio ao emprego e à educação; intervenção sobre o consumo de substâncias; e cuidado da saúde física. A caracterização como pacote integrado é essencial — não se trata de acrescentar um elemento isolado ao tratamento habitual.

A evidência de eficácia é sólida. A metanálise de Correll et al. (2018) comparou os serviços de intervenção precoce com o tratamento habitual em pessoas em fase inicial de psicose e verificou superioridade dos primeiros em todos os resultados avaliados nos momentos de seguimento de 6, 9 a 12 e 18 a 24 meses, por exemplo a redução do internamento, a redução do abandono do tratamento, a redução dos sintomas totais, positivos e negativos, e a melhoria do funcionamento e da qualidade de vida.

Existe, contudo, uma limitação importante que a investigação documentou: os ganhos tendem a atenuar-se após a transição para os cuidados habituais no termo do programa. Isto suscitou o debate sobre a duração ótima e sobre a necessidade de prolongar o modelo ou de assegurar transições mais graduais. A conclusão razoável é que a intervenção precoce melhora substancialmente o percurso durante o período em que é prestada, e que a sua interrupção abrupta desperdiça parte do ganho.

Um desenvolvimento relacionado é a intervenção em estados mentais de risco, dirigida a pessoas com sintomas atenuados ou com risco elevado de transição para psicose. A evidência aqui é mais frágil e o tema mais controverso: as taxas de transição observadas em coortes recentes são inferiores às inicialmente estimadas, o que levanta a questão do tratamento de pessoas que não desenvolveriam psicose. O consenso atual é que estas pessoas apresentam necessidades clínicas reais — habitualmente ansiedade, depressão e compromisso da funcionalidade — que justificam intervenção, mas que a medicação antipsicótica profilática não está indicada nesta fase.

Em Portugal, existem programas de intervenção precoce em vários serviços, com cobertura desigual pelo território. O acesso faz-se por referenciação dos cuidados de saúde primários, dos serviços de urgência ou de outros serviços hospitalares, e o encaminhamento rápido perante suspeita de primeiro episódio psicótico é uma das medidas com melhor relação entre esforço e benefício em saúde mental.

Para famílias que enfrentam um primeiro episódio, três orientações práticas: procurar avaliação sem demora, dado que o tempo importa; perguntar explicitamente se existe programa de intervenção precoce na área de residência; e envolver-se no programa, dado que a intervenção familiar é um dos seus componentes com maior efeito.

Ver também as perguntas 104 (psicose e esquizofrenia) e 37 (quanto tempo esperar).

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