Cuidar no dia a dia · Pergunta 18
O que é a personalidade e que papel tem na saúde mental?
A personalidade designa o conjunto de padrões relativamente estáveis de pensamento, de emoção, de motivação e de comportamento que caracterizam uma pessoa e a distinguem das outras ao longo do tempo e das situações. Não é sinónimo de carácter, que refere-se a a dimensão moral, nem de temperamento, que designa a componente constitucional e precoce da reatividade emocional. A personalidade integra ambos e acrescenta-lhes o que a experiência e as escolhas construíram.
O modelo com maior sustentação empírica é o dos cinco grandes fatores, que descreve a variação da personalidade em cinco dimensões contínuas: o neuroticismo, ou tendência para experienciar emoções negativas; a extroversão, que abrange sociabilidade, assertividade e energia; a abertura à experiência, que inclui curiosidade intelectual e recetividade estética; a amabilidade, que envolve confiança, cooperação e altruísmo; e a conscienciosidade, que abrange organização, autodisciplina, persistência e orientação para objetivos. Cada dimensão é um contínuo e não uma categoria: não existem tipos, existem posições.
A relevância destas dimensões para a saúde é substancial e frequentemente subestimada. A metassíntese de Strickhouser et al. (2017), que integrou resultados de 42 metanálises, verificou que os traços de personalidade ajudam a prever a saúde física, a saúde mental e o bem-estar com magnitudes comparáveis às de fatores de risco classicamente reconhecidos. A metanálise de participantes individuais de Jokela et al. (2013), com 76 150 pessoas adultas e 3 947 óbitos, documentou que a conscienciosidade elevada se associa a menor mortalidade por todas as causas e o neuroticismo elevado a maior mortalidade, com os comportamentos de saúde a mediarem parte substancial da associação.
Do ponto de vista salutogénico, importa deslocar a leitura. Em vez de perguntar que traços predispõem à doença, a pergunta útil é que traços e que configurações constituem recursos. A conscienciosidade associa-se à adesão terapêutica, à vigilância da saúde e à estabilidade laboral. A extroversão associa-se à construção de rede social, que é o fator protetor mais robusto. A amabilidade associa-se à qualidade das relações. A abertura associa-se à flexibilidade cognitiva perante dificuldades. Mesmo o neuroticismo, na sua faceta de vigilância antecipatória, tem valor adaptativo em contextos de risco real — a chamada preocupação saudável.
A questão decisiva é a da modificabilidade, e aqui a evidência contraria a intuição comum. A personalidade não é fixa. A revisão sistemática de Roberts et al. (2017), que reuniu 207 estudos, documentou alterações significativas dos traços de personalidade em consequência de intervenção clínica, com mudanças de cerca de meio desvio-padrão em oito semanas de tratamento, mais acentuadas no neuroticismo e na extroversão, e mantidas no seguimento. A investigação sobre desenvolvimento ao longo da vida documenta ainda o princípio da maturação: em média, as pessoas tornam-se mais conscienciosas, mais amáveis e menos neuróticas com a idade.
Três implicações práticas decorrem daqui. A primeira é que descrever-se como «sou assim» não é descrição de um facto imutável, mas de um ponto de partida. A segunda é que a psicoterapia produz alteração de traço e não apenas alívio sintomático, o que ajuda a explicar a persistência dos seus efeitos após o termo do tratamento. A terceira é que o conhecimento do próprio perfil tem utilidade prática: permite antecipar vulnerabilidades, escolher estratégias congruentes e desenhar ambientes que reduzam o atrito — quem tem baixa conscienciosidade beneficia mais de estruturas externas do que de esforço de vontade.
Convém, por fim, uma cautela. Os instrumentos de avaliação da personalidade disponíveis em contexto comercial e recreativo, por exemplo os que classificam as pessoas em tipos, não têm validade demonstrada e não devem orientar decisões pessoais, educativas ou profissionais. A avaliação com valor clínico exige instrumentos validados e interpretação por alguém com habilitação profissional.
Ver também as perguntas 19 (salutogénese) e 117 (perturbações da personalidade).
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