Cuidar no dia a dia · Pergunta 19
O que é a salutogénese e o que é o sentido de coerência?
A salutogénese é o modelo proposto por Aaron Antonovsky que inverte a pergunta habitual da medicina. Em vez de perguntar o que causa a doença — a pergunta patogénica —, pergunta o que gera saúde: por que razão algumas pessoas, expostas a stresse intenso e prolongado, permanecem saudáveis. A pergunta nasceu de uma observação empírica que o próprio autor descreveu como perturbadora: entre mulheres sobreviventes de campos de concentração, uma proporção não desprezável apresentava saúde mental e física preservada.
O modelo assenta em três teses. A primeira é que a saúde e a doença não são estados dicotómicos mas polos de um contínuo, no qual todas as pessoas se movem ao longo da vida. A segunda é que a exposição a fatores de stresse é ubíqua e é a condição normal da existência, e não a exceção a evitar. A terceira é que aquilo que determina a posição da pessoa no contínuo não é a ausência de stresse, mas a disponibilidade de recursos que lhe permitam processá-lo — designados por recursos gerais de resistência, que incluem o rendimento, o conhecimento, a inteligência, o apoio social, a identidade cultural, a estabilidade e as crenças.
O conceito central do modelo é o sentido de coerência: uma orientação global e relativamente estável que exprime o grau em que a pessoa tem confiança de que os estímulos internos e externos são estruturados, previsíveis e explicáveis; de que dispõe dos recursos necessários para responder às exigências que enfrenta; e de que essas exigências constituem desafios que merecem investimento. Estas três componentes designam-se, respetivamente, por compreensibilidade, capacidade de gestão e significado. Antonovsky considerou esta última a mais determinante, por ser a que motiva a mobilização das outras duas.
A evidência empírica é substancial. A revisão sistemática de Eriksson e Lindström (2006), que analisou 458 estudos com o instrumento desenvolvido por Antonovsky, verificou que o sentido de coerência se associa de forma robusta e transcultural à saúde percebida, em particular à saúde mental, com correlações mais fortes quanto pior a saúde inicial. A associação mantém-se após controlo de variáveis sociodemográficas, e o construto demonstrou capacidade preditiva sobre a evolução da saúde ao longo do tempo.
Do ponto de vista da promoção da saúde, a questão prática é se o sentido de coerência pode ser reforçado. Antonovsky considerou que estabilizava por volta dos trinta anos, mas a investigação posterior matizou esta posição. A análise de Super et al. (2016) propôs distinguir duas vias de reforço: a via dos recursos, que consiste em aumentar a disponibilidade de recursos gerais de resistência — rendimento, rede, competências, informação —, e a via da capacidade, que consiste em melhorar a aptidão da pessoa para identificar e mobilizar os recursos que já tem. Ambas são intervencionáveis, e a segunda é particularmente relevante quando os recursos existem mas não são reconhecidos como tal.
A tradução operacional é reconhecível. Reforça-se a compreensibilidade quando se fornece informação clara sobre o que está a acontecer e o que se pode esperar — que é, precisamente, a função de informação acessível como esta. Reforça-se a capacidade de gestão quando se identificam recursos concretos e vias de acesso, e quando se treinam competências. Reforça-se o significado quando se apoia a construção de papéis valorizados e de propósito.
O modelo salutogénico articula-se com os restantes quadros apresentados nesta parte. Partilha com o modelo dos dois contínuos a rejeição da dicotomia saúde-doença; partilha com a literacia em saúde mental positiva e com a psiquiatria positiva a convicção de que a saúde exige construção deliberada; e fornece, aos pilares do estilo de vida, a explicação de por que razão funcionam — não apenas por efeito biológico direto, mas por aumentarem os recursos disponíveis e a confiança na sua mobilização.
Ver também as perguntas 13 (literacia positiva) e 35 (fatores protetores).
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