Perturbações · Pergunta 102
O que é a perturbação bipolar?
A perturbação bipolar caracteriza-se pela alternância entre episódios de elevação do humor — mania ou hipomania — e episódios depressivos, com períodos de eutimia entre eles. Afeta cerca de 1% a 2% da população, apresenta início habitualmente entre o final da adolescência e o início da idade adulta, e é uma das condições psiquiátricas com maior impacto funcional e maior risco de suicídio.
Distinguem-se dois tipos principais. A perturbação bipolar do tipo I exige a ocorrência de pelo menos um episódio maníaco, definido por humor anormalmente elevado, expansivo ou irritável, com aumento da atividade dirigida a objetivos, durante pelo menos uma semana, com compromisso da funcionalidade marcado, necessidade de hospitalização ou presença de sintomas psicóticos. A perturbação bipolar do tipo II exige pelo menos um episódio hipomaníaco — quadro semelhante mas de menor intensidade, com duração mínima de quatro dias e sem compromisso da funcionalidade marcado — e pelo menos um episódio depressivo major.
Os sintomas de mania incluem autoestima inflacionada ou grandiosidade, redução da necessidade de sono sem fadiga consequente, pressão do discurso, fuga de ideias, distratibilidade, aumento da atividade ou agitação psicomotora e envolvimento excessivo em atividades com potencial de consequências negativas — gastos, decisões impulsivas, comportamento sexual de risco, condução perigosa, investimentos. A ausência de crítica sobre o estado é característica e explica a resistência ao tratamento durante o episódio.
Existe um erro diagnóstico frequente e com consequências relevantes. A maioria do tempo sintomático na perturbação bipolar é passada em depressão e não em mania, e as pessoas procuram ajuda predominantemente durante os episódios depressivos. Se não se investigarem episódios prévios de elevação do humor — que a pessoa frequentemente não reconhece como patológicos e recorda como períodos de produtividade e de bem-estar —, o diagnóstico é de depressão unipolar. O atraso diagnóstico médio situa-se, em vários estudos, entre cinco e dez anos.
As consequências deste erro são práticas: o tratamento com antidepressivo isolado, sem estabilizador do humor, associa-se a risco de viragem maníaca, de indução de ciclos rápidos e de agravamento da instabilidade. Por esta razão, a investigação de episódios prévios de elevação do humor deve ser sistemática em qualquer avaliação de depressão, e é útil obter informação de familiares, que frequentemente reconhecem episódios que a própria pessoa minimiza.
Sinais que devem levantar a hipótese de bipolaridade num quadro depressivo incluem: início precoce, antes dos 25 anos; episódios múltiplos e de curta duração; depressão com características atípicas, por exemplo hipersonolência e aumento do apetite; sintomas psicóticos; história familiar de perturbação bipolar; resposta insuficiente ou paradoxal a múltiplos antidepressivos; e depressão no pós-parto.
O risco de suicídio é substancialmente elevado nesta condição, com estimativas de mortalidade por suicídio muito superiores às da população geral, e o risco concentra-se nas fases depressivas e nos estados mistos, em que coexistem sintomas depressivos e de ativação — combinação particularmente perigosa por conjugar desesperança com energia para agir.
Ver também as perguntas 103 (tratamento) e 67 (pensamentos de suicídio).
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