Perturbações · Pergunta 107
O que é a perturbação de stresse pós-traumático?
A perturbação de stresse pós-traumático desenvolve-se na sequência da exposição a um acontecimento de natureza traumática — morte, ameaça de morte, lesão grave ou violência sexual, vividos diretamente, testemunhados, ocorridos a pessoa próxima ou por exposição repetida a pormenores aversivos em contexto profissional. A exposição é condição necessária mas não suficiente: a maioria das pessoas expostas a acontecimentos traumáticos não desenvolve a perturbação.
O quadro organiza-se em quatro agrupamentos de sintomas. A reexperiência: memórias intrusivas involuntárias, sonhos repetitivos, reações dissociativas em que a pessoa sente ou age como se o acontecimento estivesse a repetir-se, e mal-estar intenso perante estímulos que o recordam. A evitação: esforço deliberado para evitar memórias, pensamentos, sentimentos ou estímulos externos associados. As alterações negativas da cognição e do humor: incapacidade de recordar aspetos importantes do acontecimento, crenças negativas persistentes sobre si, sobre os outros ou sobre o mundo, culpa distorcida, estado emocional negativo persistente, anedonia, sensação de distanciamento e incapacidade de sentir emoções positivas. E as alterações da ativação: irritabilidade, comportamento imprudente ou autodestrutivo, hipervigilância, resposta de sobressalto exagerada, dificuldade de concentração e alterações do sono.
Os sintomas devem persistir mais de um mês. Nas primeiras semanas, quadros semelhantes são frequentes e considerados reações esperadas, com resolução espontânea na maioria dos casos — razão pela qual a intervenção precoce universal e obrigatória não está indicada e pode ser prejudicial.
A décima primeira revisão da Classificação Internacional de Doenças introduziu uma categoria adicional: a perturbação de stresse pós-traumático complexa, que se aplica tipicamente a exposição prolongada ou repetida a acontecimentos traumáticos de que é difícil escapar — abuso na infância, violência doméstica prolongada, tortura, tráfico de seres humanos. Acrescenta aos sintomas nucleares três domínios: desregulação emocional grave e persistente, autoconceito negativo com sentimentos profundos de vergonha ou de culpa, e dificuldades persistentes em manter relações e em sentir proximidade. Esta distinção tem consequências terapêuticas, dado que estes quadros exigem tratamento mais prolongado e faseado.
Os fatores que aumentam o risco de desenvolver a perturbação incluem a gravidade e a duração da exposição, a natureza interpessoal e intencional do acontecimento — a violência causada por outra pessoa produz maior risco do que a catástrofe natural —, a exposição na infância, a ausência de apoio social após o acontecimento, a existência de perturbação mental prévia e a dissociação durante o acontecimento.
Merece nota específica a exposição a violência sexual, que apresenta das taxas mais elevadas de desenvolvimento da perturbação, e que se associa frequentemente a atraso muito prolongado na procura de ajuda, por vergonha, por receio de não ser acreditada e por antecipação de culpabilização.
Existem manifestações que dificultam o reconhecimento. Muitas pessoas não relacionam os sintomas com o acontecimento, sobretudo quando este ocorreu há muitos anos. Outras apresentam predominantemente queixas físicas, consumo de substâncias, irritabilidade ou depressão, e são tratadas para essas condições sem que a exposição traumática seja investigada. A pergunta sobre acontecimentos traumáticos deve, por isso, integrar a avaliação clínica, formulada com cuidado e sem exigir pormenores.
Ver também as perguntas 108 (tratamento) e 74 (primeiros socorros psicológicos).
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