Perturbações · Pergunta 108
Como se trata a perturbação de stresse pós-traumático?
O tratamento de primeira linha é psicológico e focado no trauma. As orientações internacionais convergem em recomendar, como primeira escolha, intervenções que envolvem o processamento da memória traumática, e em reservar a medicação para situações específicas.
As intervenções com melhor evidência são quatro. A terapia cognitivo-comportamental focada no trauma, que combina reestruturação cognitiva das crenças distorcidas com exposição gradual. A exposição prolongada, centrada na exposição imaginária repetida à memória e na exposição in vivo às situações evitadas. A terapia de processamento cognitivo, que trabalha as crenças sobre segurança, confiança, controlo, estima e intimidade alteradas pelo trauma. E a dessensibilização e reprocessamento por movimentos oculares, que combina evocação da memória com estimulação bilateral.
Quanto a esta última, importa uma nota de rigor: a sua eficácia global é comparável à das restantes terapias focadas no trauma, mas os ensaios de desmantelamento não demonstram de forma consistente que o componente de movimentos oculares acrescente eficácia à exposição. O debate sobre o mecanismo permanece aberto, o que não invalida a recomendação clínica baseada nos resultados.
O tratamento das formas complexas segue habitualmente um modelo faseado. A primeira fase visa a estabilização: segurança, regulação emocional, competências de tolerância ao mal-estar e estabelecimento da relação terapêutica. A segunda fase envolve o processamento das memórias traumáticas. A terceira fase visa a reintegração: reconstrução de relações, de identidade e de projeto de vida. A tentativa de processar memórias sem estabilização prévia é uma das causas identificadas de agravamento durante o tratamento.
quanto aos medicamentos, a evidência é mais modesta. Apresentam eficácia demonstrada a sertralina, a paroxetina e a venlafaxina, com dimensões de efeito inferiores às das terapias focadas no trauma, razão pela qual são consideradas segunda linha ou complemento. A prazosina tem indicação específica nos pesadelos relacionados com trauma. As benzodiazepinas estão contraindicadas: não são eficazes, interferem com a extinção do medo, comprometem a eficácia da exposição e apresentam risco acrescido de dependência nesta população.
Importa referir o que não está indicado. O debriefing psicológico de sessão única, aplicado universalmente após acontecimentos traumáticos, mostrou-se ineficaz e, em alguns estudos, associado a maior risco de desenvolver a perturbação, pelo que as orientações desaconselham a sua aplicação obrigatória. A abordagem recomendada nas primeiras semanas é a vigilância ativa com apoio prático — os primeiros socorros psicológicos descritos na pergunta 74 —, com intervenção estruturada reservada a quem apresenta sintomas persistentes ou graves.
Duas orientações práticas para quem procura tratamento. A primeira: verificar a formação específica de quem conduz a intervenção numa das intervenções focadas no trauma, dado que o tratamento inespecífico apresenta resultados inferiores e o processamento mal conduzido pode agravar. A segunda: saber que o tratamento envolve, necessariamente, contacto com material doloroso, e que o agravamento transitório nas fases iniciais é esperado e não indica falha — informação que reduz substancialmente o abandono precoce.
Por fim, um esclarecimento sobre a memória. O tratamento não elimina a memória do acontecimento nem faz esquecer. Altera a forma como a memória está organizada e a resposta emocional que desencadeia, de modo a que passe a ser uma recordação do passado e não uma revivescência no presente. A recuperação de memórias supostamente reprimidas através de técnicas sugestivas não é uma prática recomendada e associa-se a risco documentado de produção de memórias falsas.
Ver também as perguntas 47 (psicoterapias com evidência) e 74 (primeiros socorros psicológicos).
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